Violência contra a mulher testemunhada por muitos, mas denunciada por poucos

Violência contra a mulher testemunhada por muitos, mas denunciada por poucos

Cândida Cristina Coelho Ferreira Magalhães*

19 de julho de 2021 | 09h50

Cândida Cristina Coelho F. Magalhães. FOTO: DIVULGAÇÃO

O grito silente de mulheres em situação de violência ecoa a voz de todas ao mesmo tempo, quando os olhares da sociedade visualizam uma cena de agressão parece abrir uma janela nunca vista antes.

A propósito, na última semana o país ficou perplexo diante dos vídeos que circularam pelas redes sociais, nos quais as cenas de agressão cometidas pelo DJ Ivis (Iverson de Souza Araújo) contra a esposa, refletem a violência contra as mulheres sem nenhum filtro. Em uma das gravações é possível ver a vítima sentada na sala cuidando da filha do casal, quando é agredida na cabeça, com a tamanha a violência, o carrinho com o bebê chega até a balançar. Em uma segunda cena, a agressão de extrema violência, tem início no quarto e prossegue na sala, são violentos chutes e socos e há um homem presente, que calmamente se retira do local.

O compartilhamento de tais imagens transportou a sociedade para “dentro das quatro paredes” que muitas vezes são as únicas testemunhas estáticas do crime , o Brasil visitou um lar violento a beira de um feminicídio , onde a mulher e a criança são vitimas diretas de um agressor com o perfil severo e dócil socialmente.

Cenários de violência e violações é o enredo de historias de muitas mulheres, embora as estatística não alcancem com fidelidade a realidade, pois é muitas vezes é algemada pelas subnotificações, ainda sim dados revelados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontam que o Brasil ocupa o quinto país que mais se mata mulheres no mundo, que ainda a cada 8 minutos uma mulher é agredida e em que 1 a cada 4 mulheres sofre algum tipo de violência.

Definitivamente as mulheres não são a ” Alice no país das maravilhas”, pois vivemos em riscos constantes quanto se trata de violência de gênero, e ser mulher no Brasil da um frio na alma e um medo valente de transpor tudo que nos aprisiona. As omissões, a ausência de denúncia e falta de aplicação da Lei Maria Penha na sua plenitude reforça o mutismo da vítima que muitas vezes grita por socorro, mas os ouvidos surtos são inacessíveis.

Perceber uma mulher em situação de violência requer o silêncio da alma diante dos barulhos do machismo e das agressões, a responsabilidade em denunciar é humanamente compulsória . Sabe-se que o feminicídio quase sempre é um crime anunciado e evitável , pois o agressor ameaça e até mesmo agride as mulheres várias vezes antes de cometer o delito.

A violência de gênero muitas vezes acontece de forma velada e não denunciada, o ciclo das violações se nutrem pelo silêncio e pelas negligências alheias. Indubitavelmente, um dia a violência se cessa e o ciclo se quebra, e uma mulher é morta ou liberta.

Portanto, os fatos envolvendo a violência contra todas as mulheres, ilustrada no caso da Pamela Holanda nos leve à reflexão do nosso papel social em não nos omitir diante de crimes dessa natureza e da indispensabilidade de políticas públicas sérias e comprometidas no enfrentamento a violência domésticas.

Basta!

*Cândida Cristina Coelho Ferreira Magalhães, advogada, palestrante e consultora jurídica

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