Vigília pró-Lula enfraquece um mês após prisão, mas tensão aumenta no entorno da PF

Vigília pró-Lula enfraquece um mês após prisão, mas tensão aumenta no entorno da PF

Prefeito de Curitiba, Rafael Greca, entra na briga e cobra da Justiça remoção do ex-presidente de prédio da polícia e fim do acampamento em bairro residencial

Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba

07 Maio 2018 | 08h00

Ponto de atos pró-Lula no Santa Cândida, em Curitiba. Foto: THEO MARQUES/FRAMEPHOTO

Um drone branco sobrevoa diariamente o prédio da Polícia Federal em Curitiba (PR), onde Luiz Inácio Lula da Silva está preso há um mês, condenado pela Operação Lava Jato no caso triplex do Guarujá. Pela câmera acoplada na mini aeronave não tripulada, policiais monitoram o movimento dos moradores locais indignados e dos “acampados”, que se avizinharam, em resistência ao encarceramento do ex-presidente, na área sitiada do entorno da superintendência da PF, onde o ambiente é cada vez mais tenso.

Os episódios recorrentes de conflitos levaram na última semana o prefeito de Curitiba, o urbanista Rafael Greca (PMN), a fazer uma “suplica” à Justiça. Cobrou a remoção de Lula – e dos manifestantes – do local, em ofício, em nota e via rede social, e apontou que o zoneamento urbano do bairro, onde está a sede da PF, pode até comportar um prédio com o serviço de emissão de passaportes, mas não “alojar, em caráter de confinamento penitenciário, um preso com a expressiva trajetória política do líder sindical, mentor e líder de movimentos sociais, ex-presidente da República”.

“Meu dever de Prefeito da Cidade de Curitiba, preocupado com a defesa social, garantia de plena segurança e perfeita integridade física das famílias curitibanas, me leva a insistir na transferência para local mais seguro do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva”, escreveu Greca, em seu perfil no Facebook.

Na sexta-feira, 4, requereu que seja aplicada a multa diária de R$ 500 mil pelo som acima do permitido feito pelos manifestantes. O zumbido diário do drone da PF é mais um dos barulhos da nova rotina que varreu o sossego das ruas do Jardim Santa Cândida, um arborizado e outrora tranquilo bairro num dos extremos de Curitiba, bem na divisa com Colombo. Desde a chegada de Lula e do grupo de apoiadores – organizados pelo PT e pelo MST -, instalou-se no local a vida de olhares desconfiados e relações conflituosas.

Barulho. Do alto, as imagens do drone registram desde o dia 7 de abril o esvaziamento do acampamento – batizado de “Lula Livre”. Nas duas primeiras semanas, após a chegada do ex-presidente, cerca de 500 manifestantes formavam o acampamento, com barracas espalhadas nas ruas do bairro e sobre as calçadas – a maioria membros do MST. Com ele vieram o comércio clandestino, a cantorias, os gritos de ordem, o futebol nas ruas, a constante presença policial, os bloqueios de tráfego e a quebra da rotina.

+ Após uma semana preso, Lula já sente isolamento político

+ Lula fica em ‘cela’ com TV e banho quente

Desde o dia 17, são cerca de 70, segundo a organização, que passaram a dormir em barracas em um terreno alugado a 800 metros do ponto principal dos protestos, a esquina Olga Benário – como batizaram os “acampados” o cruzamento das ruas Guilherme Matter com a Dr. Barreto Coutinho.

O cruzamento é o marco zero do acampamento, que está bloqueado pelos manifestantes e pelo cordão da isolamento da Polícia Militar – que cumpre ordem da Justiça estadual de interdito da área do entorno da PF, desde a chegada de Lula – e principal acesso para o prédio da PF. Nesse ponto, todos os dias são feitos protestos, reuniões e atos contra a prisão do ex-presidente. Ali permanecem quatro barracas da estrutura operacional do movimento: a que recebe os donativos, a da comunicação e a da organização e a das caixas de som. O prefeito chegou a publicar uma imagem área do ponto – que fica a uma quadra do portão da polícia.

 

Foto aérea do cruzamento de acesso a PF que prefeito publicou m seu perfil/Reprodução

Discórdia. A encruzilhada dos protestos virou o epicentro da discórdia, entre “acampados” e os moradores. É no local que todos os dias o grito em coro, amplificado em potentes caixas acústicas, quebra o silêncio das manhãs do bairro: “Bom dia, presidente Lula! Bom dia, presidente Lula! Bom dia, presidente Lula”. Uma saudação-protesto que vai se repetir no “boa tarde” e no “boa noite”.

“Tem a sujeira, tem a preocupação com gente estranha, tem as barracas na sua calçada, mas o que mais incomoda é esse ‘bom dia, Lula’ que gritam todo dia de manhã. Ninguém suporta mais isso”, conta um morador, de 72 anos, que pede para não ser identificado. Aposentando, ele teve que ajudar a mulher a tirar o sogro de 91 anos que mora em uma casa defronte, fechar todo imóvel e leva-lo para a residência de familiares em Colombo. “Ele já não aguentava mais os barulho e o movimento estava com problema de hipertensão, o médico recomendou que levássemos ele para outro lugar.”

É na “esquina Olga Benário” que na sexta-feira passada um delegado da PF, morador do bairro, quebrou o equipamento sonoro e discutiu com manifestantes. Menos de cinco dias antes, moradores entraram em confronto verbal e houve empurra-empurra, novamente por causa do som das “saudações a Lula”.

Os moradores se organizaram em grupos de whatsapp para trocar informações e buscar a remoção dos “invasores” e também passaram a isolar os jardins de suas calçadas com fitas de segurança para tentar impedir montagem de barracas e a ocupação pelos apoiadores de Lula.

Em um abaixo-assinado enviado à governadora do Paraná, Cida Borghetti (PP), com cópia à Justiça Federal, no dia 28, parte dos moradores organizados relatou a sensação de “medo” e a “baderna” que os incomoda. “Essa baderna nos impede de ir e vir com tranquilidade e segurança, nos coloca medo em relação a nossas esposas e filhos, nos coloca a mercê de maus odores e ao risco de doenças em razão do lixo que por vezes se acumula”, diz o documento entregue à 12.ª Vara Federal de Curitiba – responsável pela execução da pena, em processos federais.

“Vivemos acuados e amedrontados. Não conseguimos dormir em paz e nossas casas próprias camas. Ressaltamos que não existe aqui qualquer manifestação de posicionamento ideológico. Somos cidadãos de bem e queremos que a Justiça se cumpra.”

No documento, enviado dias antes aos disparados de arma contra o acampamento – ferindo de raspão no pescoço um dos manifestantes – e o bloqueio de uma das principais vias de ônibus do bairro com pneus incendiados, em protestos contra o crime, os moradores cobram “rápida solução” e citam os “ânimos exaltados”.

“Esperamos rápida solução para o problema, pois os ânimos estão ficando exaltados, em razão do decurso do tempo, e receamos os resultados de tamanha insatisfação.”

Para os organizadores do acampamento, as manifestações são pacíficas e há repressão ilegal por parte das autoridades policiais ao direito de manifestação. Em documento enviado à Comissão Interamericana de Direitos Humanos, um dos grupos relatou o uso de bombas na chegada de Lula e os riscos aos direito de protestarem pacificamente no local.

Imagem aérea da PF anexada em pedido de isolamento do prédio/ Foto: Reprodução

Justiça. A Justiça Federal recebeu até aqui pedidos de remoção de Lula da PF – e consequentemente dos manifestantes – de quatro frentes: dos moradores, da prefeitura de Curitiba, de um deputado estadual e da própria Polícia Federal. Nenhum deles ainda julgado.

O pedido da Prefeitura, por meio da Procuradoria-Geral da Município, feito no dia 13 de abril – seis dias depois da prisão – resultou na abertura de um processo, por ordem da juíza federal da 12.ª Vara, Carolina Moura Lebbos.

A prefeitura alega que Lula deve ser levado para “local seguro e adequado às circunstâncias do caso” para cumprimento de sua pena de 12 anos e um mês de prisão no. “Tendo em vista que as manifestações a favor e contra a prisão do ex-presidente tem causado transtorno aos moradores da região, ao trânsito, bem como ao comércio da região”.

O Ministério Público Federal se posicionou contra a remoção de Lula da sede da PF e diz que no atual momento “à princípio, é difícil afirmar a existência de outro local no estado do Paraná que possa garantir o controle das autoridades federais sobre as condições de segurança física e moral” Lula.

No documento, o procurador regional da República Januário Paludo, da força-tarefa da Lava Jato, diz que há “um aparente conflito constitucional” na questão: o direito à livre manifestação; a liberdade de locomoção dos moradores do entorno da PF; o do Estado de aplicar a pena pelos crimes praticados pelo condenado; e o do preso, que até o momento não pediu para ser removido da “cela” especial montada pela ele no quarto andar do prédio da polícia, em Curitiba.

“No aparente conflito constitucional, se por um lado os moradores do entorno da sede da Polícia Federal em Curitiba têm o direito de ir e vir e de não serem perturbados por manifestações, também é certo que devem suportar o desconforto e as limitações decorrentes do poder estatal de administração da justiça, da garantia da incolumidade dos presos, e até e do exercício da manifestação pacífica.”

Imagem da entrada da PF. / Foto: Reprodução

Cárcere. Em seu primeiro mês de cárcere, Lula ainda não apresentou um pedido para deixar a PF em Curitiba. A defesa quer esgotar todos os recursos no processo. Distante duas quadras do ponto onde ocorrem as manifestações, o ex-presidente informa os manifestantes que ouve diariamente os gritos – reverberados em caixas acústicas – de “bom dia”, “boa tarde” e “boa noite” e conclama seus apoiadores a resistirem.

Na última semana, o ex-presidente recebeu pela primeira vez as visitas de políticos: o amigo, ex-governador da Bahia e possível plano B do PT para a disputa presidencial Jaques Wagner, e a presidente do partido, Gleisi Hoffman.

Sem o acesso esperado a aliados, dentro do cárcere, Lula manteve nesses primeiros 30 dias o contato com o partido via advogados. No dia 1.ª de Maio, o petista preso levou a Curitiba pelo menos 5 mil sindicalista e apoiadores que transformaram o Dia do Trabalha em dia de “Lula Livre”.

Mais conteúdo sobre:

operação Lava JatoLula