Vida de modelo: a verdade que não deve ser secreta

Vida de modelo: a verdade que não deve ser secreta

Bernardo Pasqualette e Tamilyn Ayumi*

04 de julho de 2021 | 13h55

Bernardo Pasqualette e Tamilyn Ayumi. Foto: Divulgação

Para o público em geral, a rotina de uma modelo profissional pode parecer um conto de fadas. Cercadas de glamour e contando com todas as benesses de uma carreira que, ao menos para os desavisados, mais aparenta ser um verdadeiro estilo de vida, nada parece faltar àquelas que conseguem trilhar o caminho sonhado por tantas meninas Brasil afora. Poucas vezes, no entanto, a forma diferiu tanto da essência. O sonho de trilhar os caminhos da moda – seja nas passarelas, seja como modelo fotográfica – pouco tem do suposto glamour que se tenta transmitir ao grande público. Muito pelo contrário.

Além das dificuldades normais inerentes a qualquer profissão, a carreira de modelo vem, nos últimos anos, enfrentando uma série de rotulações responsáveis por aumentar a desinformação em torno do trabalho. De séries televisivas que associam a atividade à prostituição, passando pelo extravagante mundo das redes sociais, onde o
ofício de modelo é costumeiramente identificado de modo equivocado, até a mídia, que frequentemente se refere a uma vasta gama de profissionais simplesmente como “modelos”, tudo conspira para tornar bastante confusa uma situação já por demais complexa. A imprecisão terminológica, em verdade, é sintoma de algo mais profundo.

Embaralha as atividades, associando-as de maneira acrítica. O adjetivo “acrítica” aqui é empregado de forma precisa. Não há, neste artigo, valoração moral ou qualquer tipo de preconceito em relação às profissionais do sexo – profissão regulamentada no Brasil desde 2002, com direito a recolhimento previdenciário, auxílio em caso de doença e aposentadoria. Sendo uma atividade lícita, cada um faz de sua vida o que bem entende. O que se busca é colocar cada coisa em seu lugar.

A prostituição existe em diversos meios, até por um motivo bastante óbvio: não se exige exclusividade na profissão mais antiga do mundo. O que não se deve fazer é tomar a parte pelo todo. Expressões popularizadas no Brasil nos últimos anos, como a nacionalmente conhecida “book rosa”, tendem a associar a profissão de modelo a atividades de cunho sexual, como se fossem parte indissolúvel de um mesmo todo. Não é verdade. Tampouco é justo que se siga assim.

Uma modelo profissional é alguém que não possui apenas características físicas inatas, mas, antes, deve  aperfeiçoar um estilo ao longo de toda a carreira. Os diferenciais para se destacar na profissão não são poucos nem podem ser considerados triviais: postura, fotogenia, elegância e até mesmo um bom nível cultural, exigência cada dia mais presente em todas as profissões liberais. É preciso também ter técnica e um nível artístico satisfatório. Some-se a tudo isso muita disciplina e vontade de aprender, pois a profissão impõe um grande investimento a nível pessoal.

Não para por aí. Além disso, muitas meninas começam cedo na profissão, o que implica na necessidade de mudança de cidade e, por vezes, até de país, o que gera naturais dificuldades de adaptação. Tudo isso em meio à enorme pressão e à extrema concorrência que existe nesse nicho profissional.

Distante do glamour das redes sociais ou da desinformação que volta e meia é propalada como expressão absoluta da verdade, essa é a realidade da esmagadora maioria das modelos profissionais. A ocupação, para os leigos, não raro pode aparentar ser a concretização de um status, algo assemelhado a um passatempo remunerado. Nada mais
fantasioso e distante da realidade da maioria das profissionais.

Por outro lado, pouco se fala sobre a recente abertura mundo da moda à diversidade. Para tanto, não é necessário ir muito longe: basta ver a inserção cada vez maior nesse mercado de modelos plus size e da melhor idade, algo incomum há pouco tempo atrás e que relativiza um padrão de beleza consolidado por décadas. Pouca coisa, definitivamente não é.

No entanto, este tema – tão importante e atual no mundo de hoje – se vê ofuscado pelo sensacionalismo com o qual a profissão de modelo é frequentemente abordada. Assim, coloca-se em segundo plano o que é essencial e se retrata como corriqueiro aquilo que é secundário e excepcional.

Independentemente de estereótipos e de toda a desinformação que ronda o ofício, é necessário reestabelecer um fato: ser modelo não é um status, nem pode ser considerado um hobby ou qualquer coisa que o valha. Tampouco é justo associar a profissão a outras atividades que não lhe são correlatas.

Longe de ser simplesmente um estilo de vida, o ofício associado ao glamour é, em realidade, uma profissão que demanda talento e esforço, como tantas outras. Situar esse trabalho de forma adequada e, principalmente,  entendê-lo em seu âmago, são os dois primeiros grandes passos para que possa compreender a profissão de modelo em sua essência; livre de estereótipos, preconceitos e rotulações de quaisquer espécies. Tudo isso é verdade e não deve ser secreto.

*Bernardo Pasqualette é advogado e escritor

*Tamilyn Ayumi é modelo profissional

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