Viatura macabra

Viatura macabra

João Linhares*

29 de maio de 2022 | 06h00

Homem é morto após ser trancado em viatura policial com gás em Sergipe Foto: Reprodução Redes Sociais

Uma voz se calou

abafada,

contrita,

torturada…

Até quando esse teatro medieval será encenado?

Até quando a plateia aplaudirá o coringa?

O passarinho não pia mais.

Seu canto foi asfixiado pelo gás

venenoso do ódio.

Suas asas estão rotas.

O céu foi tomado de cinzas

oriundas das fogueiras

onde é comburida, diariamente,

a democracia.

As borboletas preferem ficar como lagartas.

A metamorfose do poder as inibiu.

É-lhes proibido destoar e ser diferente da grei…

O pranto sufocou o riso,

a alegria sucumbiu.

Só há a vontade de um rei.

Onde estão as memórias felizes?

Nas viaturas do destino,

cada João,

cada José,

cada Genivaldo é levado ao cadafalso…

E isso não é mero deslize.

É uma constante, uma maré.

Impôs-se o desatino!

O “sistema” é mendaz

E o coringa é falso.

Ele não chora,

ele ri.

Mas o riso (doentio) é de morte,

de morte matada,

de morte sofrida,

de morte forjada,

de muita vida dirimida.

De uma vida que não pôde simplesmente viver.

E o coringa está na berlinda.

Até quando?

*João Linhares, integrante da Academia Maçônica de Letras de Mato Grosso do Sul. Promotor de Justiça do Ministério Público do Estado de Mato Grosso do Sul. Mestre em Garantismo e Processo Penal pela Universidade de Girona, Espanha. Especialista em Jurisdição Constitucional e Direitos Fundamentais pela PUC – RJ

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