Viagem às fábricas mortas

Viagem às fábricas mortas

Caetano Lagrasta*

08 Novembro 2018 | 06h00

Caetano Lagrasta. FOTO: DIVULGAÇÃO

A ideia deste livro surgiu numa viagem de trem a Paranapiacaba, há uns 8 anos, espiando pela janela o desfile de fábricas mortas, nos caminhos dos santos do ABC, algumas ocupadas por empresas de eventos noturnos e de forrós; outras entronizadas por empresas dedicadas à exploração da credulidade em sacrários evangélicos, etc.

Viagem às Fábricas Mortas (Desconcertos Editora) é um romance quase imemorial para minha consciência, sempre em luta com obrigações profissionais e a promessa, para mim mesmo, de que lá pelos 45 anos o escreveria.

No Fábricas Mortas confundi memórias e ficções.

As personagens são pessoas simples que, até sem o querer, compactuam com ditaduras: do lar, da profissão e do terror. Terror político e profissional, enquanto algozes, alguns de inocência anunciada, outros de maldade dolosamente consumada. Vítimas? Todos somos ou um dia seremos, sem despertar qualquer interesse.

Estamos no Brás, nos anos 40; a rotina do bairro operário e suas transformações por décadas escrevem a história da família e sua segregação social; um crime e seus fantasmas; corpos insepultos; o terror.

Narradores nos conduzem por corredores da memória: Herculano, paciente de internações esporádicas, ‘Santinho’, o irmão farmacêutico, a cunhada e o sobrinho Alfredo; os refugiados … Com eles atravessamos linhas de trens e conhecemos carregadores de estação, e o interior do Estado; dessas viagens escorre a verdade sombria dos dias: a convulsão política; o eletrochoque que sufoca sonhos e ceifa futuros.

A modernidade, para eles, é o contato com refugiados submissos, massacrados entre sorrisos, acabam por criar novas escravidões e amores extraídos ao ódio, por entre desajeitados afagos e silenciosas explorações.

Em Fábricas Mortas, os personagens estão em fuga.

Nunca revelam a verdadeira face. E neste quebra-cabeça de memórias falseadas, máscaras conservam o pouco que lhes resta de humanidade.

Há sempre algo oscilando entre alegria e tristeza, enredadas num abraço sufocante, a misturar perigos que atravessam décadas de horrores, tragados nas semelhanças entre torturador e torturado.

Esse livro continuaria numa longa viagem, não fosse a interferência do editor Claudinei Vieira, nessa vereda de trágicas correções e infindáveis leituras sobre um Brasil de indecências e gorgulhos, na longa noite dos porões civis-militares.

Um novo projeto começa a ser digitado, dolorosamente, quase 52 anos de Cadernos, para um dia publicar ‘Memórias’, em edição de bolso e papel bíblia…

Que a Literatura continue viva e enfrente o futuro sombrio e autoritário que se avizinha.

Viagem às Fábricas Mortas será lançado neste sábado, 10, das 13h às 16h, no Café Colón, Rua Alagoas, 555, Casa 2, Higienópolis, São Paulo

*Caetano Lagrasta, magistrado desde 1975, aposentado compulsoriamente desembargador, depois de 38 anos de carreira, em razão dos 70 anos de idade, em 2013; contínuo, em 31 de março de 1964, no Tribunal de Alçada Civil e, depois de 12 anos, diretor de seu Departamento de Jurisprudência; árbitro nos últimos cinco anos, advogado formado na Faculdade do Largo de São Francisco, onde ocupa na Academia de Letras, a Cadeira Graciliano Ramos