Vernáculo olvidado

Vernáculo olvidado

João Linhares*

05 de maio de 2022 | 05h30

João Linhares. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Idioma nosso de cada dia:

ignorado,

amarfanhado

e, para muitos, parece

até incognoscível.

Uma ode à sua relevância,

enquanto alguns desconhecem a sua face.

Incrível?

Façamos uma prece

à sua santidade!

Anjo recôndito,

blindado nos alfarrábios,

mas que dança nos lábios

como samba no carnaval.

Na boca da gente,

transfigura-se

e fica maleável,

flexível, monumental!

A estrutura castiça,

formal,

assusta a pessoa simples,

todavia,

é destrinchada

no palato do povo,

indiferente às gramáticas.

Marcescível,

repleto de corruptelas

e gostoso.

Nas ruas, usamos suas letras

pro nosso gozo.

Ah, Camões,

quantos versos profligaria

com essa ousadia,

com tantas modificações?

Eça, Machado, Drummond,

Manoel de Barros…

Quantos gigantes carregou em seus braços?

Entretanto, o melhor mesmo

é o português falado

na esquina,

no botequim,

no cabeleireiro,

no bate-papo entre amigos,

na padaria, no posto de gasolina…

Sabe por quê?

Porque é verdadeiro,

de fala genuína

e pura!

Esse é o porquê.

E arranca,

olho no olho,

gargalhadas,

amplexos,

lágrimas

e muxoxos.

Nada insosso,

conquanto complexo…

Nada pernóstico,

apenas sinceridade,

análises,

vaticínios,

prognósticos,

pulcritude.

Sua idade

é a do tempo

que embala o rebento;

evolui com o vento,

prestigia talentos.

Ostenta muitas regras,

exceções, estilos,

engalana

ou lança na lama

pronunciamentos.

Língua pátria,

genetriz de nossas profundas aspirações,

acicata nossos alentos,

difunde nossas emoções.

Deitamos em seu colo

a toda hora,

em cada momento.

No brado

e também no silêncio.

Por seu meio, mostramos,

de certa maneira,

nossa cara ao mundo.

E quem somos na eternidade efêmera

de cada instante,

de cada segundo…

*João Linhares, integrante da Academia Maçônica de Letras de MS. Promotor de Justiça/MPMS. Mestre em Garantismo e Processo Penal pela Universidade de Girona, Espanha. Especialista em Jurisdição Constitucional e Direitos Fundamentais pela PUC – RJ

Tudo o que sabemos sobre:

Artigo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.