‘Vermelho’ e outros suspeitos de hackear celulares de Moro e Deltan não estiveram na Câmara

‘Vermelho’ e outros suspeitos de hackear celulares de Moro e Deltan não estiveram na Câmara

Registros da Polícia Legislativa mostram que quatro presos da Operação Spoofing, que investiga a invasão de telefones de autoridades, não ingressaram nas dependências do Parlamento nos últimos quinze anos

Renato Onofre/BRASÍLIA

31 de julho de 2019 | 12h07

Os quatro presos na Operação Spoofing, que investiga a invasão de telefones de autoridades, não estiveram na Câmara dos Deputados. Os registros da Polícia Legislativa não acharam anotações de entradas de Walter Delgatti Neto, o ‘Vermelho’, que confessou os ataques a aparelhos, e dos outros três suspeitos nos últimos 15 anos.

O Estado pediu por meio de Lei de Acesso à Informação os registros de entrada dos quatro alvos da operação. De acordo com a Mesa Diretora da Câmara, não constam no Sistema de Identificações de Visitantes (Sivis) que os suspeitos tenham ingressado nas dependências do Parlamento desde 1.º de janeiro de 2004 até o dia da prisão.

A Polícia Federal tenta entender as motivações que levaram ‘Vermelho’ a invadir os celulares de membros da força-tarefa da Lava Jato, do ministro Sérgio Moro (Justiça e Segurança Pública) e de outras autoridades dos três Poderes. Uma das hipóteses é de um crime com intenções políticas.

Delgatti era filiado do DEM, mas afirmou aos investigadores que tinha simpatia pelo PT. De acordo advogado do DJ Gustavo Henrique Elias Santos, Ariovaldo Moreira, seu cliente disse em depoimento à PF que a intenção de Delgatti, amigo do DJ, era de vender ao PT as mensagens que obteve.

À PF, Delgatti disse que não vendeu a informação ao jornalista Glenn Greenwald, editor e cofundador do Intercept Brasil, que iniciou a série de reportagens sobre as supostas mensagens encontradas nos aparelhos de membros da Lava Jato.

Durante o depoimento, o hacker disse que chegou a Greenwald por meio da ex-deputada Manuela D’Ávila (PCdoB-RS), ex-candidata a vice-presidente da República. Ele disse ter conseguido o telefone dela ao acessar a lista de contatos do Telegram da ex-presidente Dilma Rousseff.

Delgatti disse que Manuela D’Avila não estava acreditando que ele tinha arquivos ligados aos procuradores da Lava Jato e, por isso, enviou a ela uma gravação de áudio de dois procuradores.

“No mesmo domingo do Dia das Mães, cerca de dez minutos após ter enviado o áudio, recebeu uma mensagem no Telegram do jornalista Glenn Greenwald, que afirmou ter interesse no material, que possuiria interesse público”, diz o depoimento.

O Estado mostrou nesta quarta-feira que os investigadores estão cruzando informações encontradas nos celulares e computadores dos quatro presos com registros de corretoras de moedas virtuais – as criptomoedas.

O objetivo é checar se há relação entre o dinheiro identificado em contas com a eventual venda de mensagens, o que poderia configurar outros crimes, além da invasão de dispositivos informáticos. Os investigadores buscam intermediários e possíveis “patrocinadores” dessas invasões.

No pedido de prisão dos quatros, a PF incluiu relatório do Coaf que apontou movimentações atípicas nas contas do casal que totalizam R$ 627 mil – R$ 424 mil na de Santos e R$ 203,5 mil vinculado ao nome de Suellen. Ao mesmo tempo, a renda mensal declarada pelos dois é de cerca de R$ 5 mil. Parte dessas transações, de acordo com a versão apresentada pela defesa, tem como origem o mercado de criptomoedas.

Na decisão que autorizou a ação da PF, o juiz Vallisney aponta a necessidade de se investigar possíveis “patrocinadores” do grupo. “Diante da incompatibilidade entre as movimentações financeiras e a renda mensal de Gustavo e Suellen, faz-se necessário realizar o rastreamento dos recursos recebidos ou movimentados pelos investigados e de averiguar eventuais patrocinadores das invasões ilegais dos dispositivos informáticos (smartphones)”, escreveu o magistrado.

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