Vereador preso no Rio diz que guardou R$ 800 mil em casa por medo de confisco à la Collor

Vereador preso no Rio diz que guardou R$ 800 mil em casa por medo de confisco à la Collor

Daniel Marcos Barbiratto de Almeida (PDT), o Daniel Martins, é enteado do deputado estadual Luiz Martins, também capturado na Operação Furna da Onça por suspeita de receber um mensalinho de R$ 80 mil

Julia Affonso

20 Novembro 2018 | 06h00

Daniel Martins. Foto: Câmara Municipal do Rio

O vereador Daniel Marcos Barbiratto de Almeida (PDT), o Daniel Martins, afirmou em depoimento à Polícia Federal que guardou em casa R$ 800 mil – R$ 730 mil, somados a 11 mil euros e US$ 23 mil –, em dinheiro em espécie, por ‘receio de confisco de valores, tal como ocorreu no governo Collor’. Daniel Martins é enteado do deputado estadual Luiz Martins (PDT). Os dois foram presos na Operação Furna da Onça.

Em março de 1990, quando assumiu a Presidência, o hoje senador Fernando Collor de Mello e sua então ministra da Fazenda Zélia Cardoso de Mello confiscaram a poupança e a conta corrente, autorizando saques limitados a NCZ$ 50 mil – a moeda da época. O saldo deveria ficar retido por 18 meses, com correção e 6% de juros ao ano.

“Ressalta que a quantia encontrada em sua residência é fruto de valores acumulados ao longo de anos, de sua esposa, sua mãe, seu padrasto e seu pai biológico, inclusive as notas arrecadadas são antigas, com elásticos grudados, isso porque foi orientado por seu padrasto a sempre ter dinheiro em casa, em razão de receio de confisco de valores, tal como ocorreu no governo Collor, com o confisco da poupança e conta corrente”, afirmou Daniel Martins à Polícia Federal.

Luiz Martins. Foto: Alerj

O Ministério Público Federal afirma que o vereador é ‘enteado e operador financeiro do deputado estadual Luiz Martins’. Segundo os investigadores, Daniel Martins ‘é contumaz doador de campanha’ do padrasto e ‘aparece em operações atípicas’.

“Essa apreensão está conforme a análise fiscal realizada pela Receita Federal do Brasil, no sentido de que Luiz Martins fazia e faz trafegar quantias relevantes de dinheiro por fora do sistema bancário, valendo-se, para tanto, de Daniel. Essa escolha se deve justamente, é claro, em função da origem ilícita desses valores”, aponta a Procuradoria da República da 2ª Região.

De acordo com a Receita, o vereador apresentou em 2010, 2012, 2013, 2014, 2015 e 2017, variação patrimonial a descoberto – valores dos dispêndios/aplicações não estão respaldados pelos rendimentos declarados. A Polícia Federal questionou Daniel Martins sobre a origem e o destinatário de créditos de R$ 5 milhões em suas contas bancárias, entre 2008 e 2017, período em que seus rendimentos foram de R$ 845 mil.

O vereador declarou que ‘desconhece tal fato e nunca movimentou tais valores e inclusive abre mão do seu sigilo bancário para demonstrar o contrário’. Daniel Martins também afirmou desconhecer créditos de R$ 1,1 milhão transferidos sem origem conhecida para suas contas em 2012.

A PF também perguntou ao enteado do deputado se ele tinha ‘explicações para o fluxo ou depósitos de alto valor em suas contas bancárias’. O vereador disse que ‘nunca recebeu depósitos de alto valor’.

“Porém esclarece que recebeu uma quantia em torno de R$ 300 mil de seu pai biológico, após o seu falecimento acerca de um ano, esse valor não foi declarado ao Fisco, porém parte da quantia apreendida foi declarada no imposto de renda de seu padrasto, o deputado Luiz Martins, parte dos valores refere-se à venda de dois veículos pessoais, cuja soma das operações foi em torno de R$ 185 mil”, afirmou.

“Esclarece que são financiados, inclusive o apartamento em que reside e seu veículo pessoal, também solicita que seja consignado que não possui outros bens, somente os declarados no imposto de renda e abre mão do seu sigilo fiscal.”

À Polícia Federal, Daniel Martins disse que ‘nunca’ buscou pacotes com dinheiro em espécie para o padrasto. Declarou ainda que ‘jamais’ Luiz Martins lhe pediu para buscar valores.

A Furna da Onça mira um esquema de corrupção, lavagem de dinheiro e loteamento de cargos públicos e mão de obra terceirizada em órgãos da administração estadual que teria movimentado R$ 54,5 milhões.

Os parlamentares investigados votariam de acordo com os interesses do ex-governador Sérgio Cabral, na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), e, em troca, receberiam ‘mensalinhos’, que podiam chegar a R$ 900 mil, e a possibilidade de nomear apadrinhados para cargos em órgãos como o Detran-RJ e a Fundação da Infância e a Adolescência (FIA), e em empresas terceirizadas.

Luiz Martins recebeu, segundo o Ministério Público Federal, R$ 80 mil por mês somados a um ‘prêmio’ de R$ 1,2 milhão.

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