Verdadeiramente cristão

Verdadeiramente cristão

Francisco Hupsel*

16 de julho de 2021 | 06h15

Francisco Hupsel. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Advogado e católico conservador. Em 1937, colegas seus, acovardados diante da ditadura Vargas, negaram-se a defender presos políticos. Ele aceitou a designação da OAB.

Sabia que Jesus foi condenado por um pusilânime Pilatos: mesmo afirmando “nenhum crime acho nele” (Mt. 27:24), diante do clamor disse “tomai-o vós e o crucificai.” E porque ovacionado “rei dos judeus”, puseram em cima da cruz: INRI. Iesus Nazarenus Rex Iudeorum: Jesus de Nazaré, Rei dos Judeus. “Então, tu és rei?”, perguntou Pilatos. Nas diversas versões, um ponto em comum: Cristo assustou o poder constituído. Foi o bastante!

O advogado foi ver os clientes: os comunistas Prestes e Harry Berger. Questionado como um fervoroso cristão aceitou defendê-los, respondeu: “são membros, também, desta vasta e tão atribulada família humana”. Ser contra o comunismo não é ser contra a pessoa. A criatura está acima das ideologias. O adversário, até mesmo o inimigo, nunca perde a condição humana. Deparou-se com Berger, dilacerado pelas torturas. O advogado teve de invocar o art. 14, da lei de proteção aos animais, para que o réu tivesse um tratamento humanitário!

O verdadeiramente cristão repugna a tortura. Ela levou Jesus à morte! Berger, à loucura!

Coerente, em sua longa vida defendeu presos políticos de todas as correntes. Mais de 300. Do integralista Plínio Salgado, a Lacerda, JK, Arraes e tantos mais. E jamais cobrou um único centavo para que não se dizer que os defendia por interesse material.

O verdadeiramente cristão aceita e respeita os contrários.

Em 1955, houve uma tentativa de se impedir a candidatura de JK à Presidência. Mesmo lhe fazendo oposição, criou a Liga da Defesa da Legalidade pugnando pela democracia. Eleito, JK o convida para ser Ministro do STF. Ele recusa. Não serviu às suas convicções para obter o prêmio de um cargo público.

O verdadeiramente cristão não se escraviza nas vaidades e ambições. Não vende a alma para alcançar o poder e a glória.

Contra o comunismo, ficou a favor da deposição de Jango. Implantada a ditadura, não se recolheu, nem se encolheu. Voltou à luta. E foi preso, aos 75 anos, sob o infame AI 5. Coerente, porém, o fervoroso católico indignou-se quando D. Evaristo Arns felicitou Fidel Castro pelos 30 anos da revolução cubana. Lá, também vidas foram dilaceradas. Por discordância ideológica.

O verdadeiramente cristão insurge-se contra predadores da dignidade humana. Estejam onde estiverem. Qualquer que seja o manto a encobrir suas perversidades.

Assim foi Heráclito Fontoura Sobral Pinto.

Nesses tempos de intolerância, de exaltação à violência, de hipocrisia, de menosprezo à vida e ao semelhante, seja luz, Sobral Pinto. Faça-se vivo o seu exemplo. O Brasil precisa!

*Francisco Hupsel, advogado, mestre em Direito pela Universidade de Coimbra, ex-professor de direito da Ufba, da Ucsal, da Unifacs e da EsaEX (EsFCEx)

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