Ver, ser visto… e filmar

Ver, ser visto… e filmar

Ana Dillon*

12 de dezembro de 2019 | 06h30

Ana Dillon. Foto: Felipe Fittipaldi

“Hoje não vamos falar de carência, hoje vamos falar de potência”. Foram as palavras da professora Luciana Quinet, ao microfone, ao lado de um grupo de estudantes de uma escola municipal que apresentavam pela primeira vez o filme que produziram, na Mostra de curtas metragens promovida pelo programa Imagens em Movimento. Assim como fazem constantemente as crianças, Luciana conseguiu, com poucas palavras, subverter a lógica dos pensamentos desgastados aos quais os adultos frequentemente se agarram. A professora resumia assim o que acontecia em um encontro onde 120 estudantes debatiam filmes realizados em oficinas de cinema que aconteceram em suas escolas.

Os curtas-metragens, escritos, dirigidos, encenados e editados pelos jovens, narravam situações inspiradas em suas próprias vivências. Alguns destes filmes traziam ainda olhares dos estudantes sobre a vida adulta que os rodeia. É o caso do curta “Visível”, realizado em uma escola de Oswaldo Cruz, que conta a história de uma gari que parece ser invisível aos olhos dos alunos enquanto usa seu uniforme. Mas ao final do expediente, as tranças, o batom e a beleza de Claudia parecem se imprimir pela primeira vez nas retinas dos jovens personagens que a observam sair da escola.

O curta, que brinca com os códigos da linguagem cinematográfica nas cenas em que a personagem observa fixamente a câmera enquanto alunos correm ao seu redor espalhando bolinhas de papel por todos os lados, fala do gesto fundamental de enxergar o outro e da sensação de se sentir (ou não) visto. A noção de visibilidade conecta o ato de fazer cinema à experiência de estar no mundo, alcançando dimensões sociais e subjetivas ao mesmo tempo. No debate que se segue à projeção, um professor pergunta se os jovens realizadores se identificam com a situação da personagem, quando usam o uniforme da rede municipal de ensino nas ruas. A resposta é afirmativa.

Em seguida, adolescentes moradoras da Rocinha expõem um curta-metragem bastante experimental que reúne imagens de arquivo da recente tragédia ambiental do óleo no litoral brasileiro com imagens capturadas por elas mesmas, nos espaços que frequentam ou em outros talvez menos frequentes em seus cotidianos, como uma galeria de arte. Aos poucos, estas imagens aparentemente desconexas vão sendo costuradas pela presença de uma personagem. Seu olhar se revela como o fio que atravessa e conecta fragmentos visuais colhidos em muros da gávea, troncos de bambu da Puc ou capturados via Youtube. A personagem (assim como o espectador, por consequência) se afeta em igual medida com as obras de arte da galeria que visita e com as rachaduras e texturas que encontra na rua, logo após deixar este espaço – é o que nos diz a realizadora Maria Vitória, de 15 anos, após a sessão.

As falas dos estudantes nos debates sobre estes filmes parecem ser uma continuação natural do processo de realização audiovisual. Pegar o microfone e falar para uma platéia de mais de 100 pessoas parece não ser, para eles, muito diferente de pegar uma câmera para contar sua própria história. Talvez por isso, nas conversas após cada filme, cria-se um espaço de intimidade onde aparecem relatos de vivências de relações familiares, ou do sentimento de solidão na escola, por exemplo. O que se ouve é a voz arrebatadora de uma juventude que, a despeito de toda a opressão, está conectada ao mundo de hoje, se afeta com as imagens que a cercam e tem consciência do poder de sua voz. Uma juventude que, apesar da discriminação, da injustiça, da violência, do massacre à cultura e à educação, está atenta e vai se fazer visível.

*Ana Dillon é fundadora da associação RAIAR, produtora cultural e diretora do programa Imagens em Movimento

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