Venture capital: quais os motivos para investir em meio à crise?

Venture capital: quais os motivos para investir em meio à crise?

Nemer Rahal*

17 de junho de 2020 | 05h00

Nemer Rahal. FOTO: DIVULGAÇÃO

Em um cenário tão desafiador como o em que estamos vivendo, é comum questionarmos se realmente vale esperar ou investir durante a crise e, neste caso, onde investir. É uma questão natural, afinal crises são desconfortáveis para todos, geram medos e desafiam algumas de nossas crenças, rotinas e formas de lidar com o cotidiano. Não tem sido diferente com a pandemia que estamos vivemos nestes dias de 2020. A covid-19 tem impactado diretamente o nosso dia a dia, o de nossas famílias, e empresas. Mas, apesar de todos os desafios que surgem em tempos difíceis e até infelizes, estes momentos são capazes de criar oportunidades únicas.

Antes de entrarmos diretamente nas oportunidades mais latentes, cabe um comentário sobre o princípio da diversificação, regra bastante difundida em portfólios de investimentos, que ganha ainda mais relevância em momentos como este. Alocar recursos em diferentes classes de ativos, moedas e geografias pode gerar carteiras mais ou menos agressivas, dependendo do equilíbrio entre os percentuais alocados. Entretanto, independentemente do perfil da carteira, a exposição a vários investimentos invariavelmente oferece certa proteção, ainda mais necessária em momentos mais extremos.

Também é válida uma breve análise sobre alocações em função dos prazos de maturação dos investimentos. Por mais contraintuitivo que possa soar para alguns, em momentos assim é mais difícil imaginar os acontecimentos mais imediatos do que estimar o que ocorrerá no longo prazo. No curto prazo, não conseguimos imaginar o que pode ou vai acontecer com o desenvolvimento de vacinas, com os avanços do contágio do vírus e nem com a oscilação do mercado. Mas, até mesmo a partir da experiência que temos em crises passadas, não é difícil vislumbrar cenários e perspectivas mais positivas para daqui a alguns anos. O mesmo vale para os investimentos. Ou seja, ainda que a tendência seja privilegiar a liquidez dos ativos de curto prazo, a alocação de parte do portfólio de investimentos em ativos menos líquidos e de prazos mais extensos, como fundos de venture capital, muitas vezes funciona como forma de evitar a volatilidade momentânea dos mercados.

Bom, até este momento, tratamos de assuntos que nos ajudam no atual contexto e também nos ajudaram em crises passadas. Entretanto, mais relevante seria entender quais impactos provocados pela covid-19 indicam tendências capazes de nos ajudar em decisões de investimento. Nos últimos meses, tem sido notável a relevância que a tecnologia assumiu no cotidiano das pessoas. Estamos usando a tecnologia de forma muito mais frequente e intensa, e fica até difícil acreditar que qualquer empresa esteja superando esse momento sem seu uso apropriado. Vendo a tecnologia ganhar tamanha importância na vida das pessoas, percebemos que, hoje, a sociedade está bem mais aberta às tecnologias em benefício da saúde, da educação e de serviços – como e-commerce –, além de uma série de outros temas que estão sendo forçadamente explorados por causa da pandemia.

Este movimento de digitalização de processos e formatos ao qual temos assistido está gerando um avanço tecnológico que permanecerá e passará a fazer parte de nossas vidas. As empresas antigas terão que se adaptar a essa nova realidade tecnológica, enquanto novas empresas já surgirão com modelos muito mais nativos às tecnologias. Esse novo contexto de avanço da digitalização e a incorporação da tecnologia como tema de destaque para a sociedade e do mundo corporativo representa imensa oportunidade para startups (empresas tipicamente adeptas à inovação, tecnologia e, em muitos casos, disrupção) — e, consequentemente, para fundos de venture capital — que tendem a investir nestes modelos de negócios.

Ainda reforçando o argumento favorável a alocações em mercado de venture capital, neste momento, há o fato de que, tendo havido sensível redução na liquidez do mercado financeiro como um todo, os preços de ativos de uma forma geral, incluindo os de startups, também reduziram. Naturalmente, com este ajuste, as condições de investimentos dos fundos de venture capital que possuam recursos disponíveis neste momento tendem a tornar esta classe de ativo ainda mais interessante para investidores. Ainda que o argumento de ajuste de preços também favoreça outras estratégias de investimentos, vale lembrar que na época do pós-crise de 11 de setembro e de 2008, enquanto a bolsa de valores levava alguns anos para recuperar seu ritmo, o mercado de venture capital teve recuperação com notável rapidez e apresentou desempenho louvável no ano seguinte.

No final das contas, em análise mais objetiva, o venture capital como classe de ativo acaba saindo como vencedor desta crise. Sendo este um investimento de logo prazo, dentro de um segmento resiliente cuja tendência tem se mostrado positiva, e por falarmos também em um momento de sensível desvalorização dos preços, este bom momento de entrada em venture capital tem nos permitido aproveitar oportunidades que provavelmente apenas ressurgirão dentro de muitos anos. Assim, reservar um percentual adequado da alocação de investimento para venture capital parece medida acertada neste momento.

*Nemer Rahal, managing partner da Mindset Ventures

Tudo o que sabemos sobre:

Artigo

publicidade

publicidade

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.