Venezuela: sem luz no fim do túnel

Venezuela: sem luz no fim do túnel

Heni Ozi Cukier*

30 de maio de 2019 | 13h00

Heni Ozi Cukier. FOTO: DIVULGAÇÃO

Neste ano de 2019 a crise venezuelana vem se agravando de modo impressionante. A inflação e a miséria do país não são novidades desde 2016, mas um novo componente político foi adicionado com a autoproclamação de Juan Guaidó como Presidente e suas seguidas tentativas de destituir Nicolás Maduro e retomar a normalidade democrática no país. Com o acirramento das tensões, os olhares em todo o mundo estão se voltando para a região, que está se tornando uma parte importante do xadrez geopolítico global.

Três das maiores potências mundiais estão envolvidas diretamente na questão: Estados Unidos, Rússia e China. Os dois últimos estão do lado de Maduro por terem vínculos econômicos e militares com a Venezuela, ambos têm grande participação no mercado de petróleo, são vendedores de aparato bélico e credores do regime. A oposição, por sua vez, tem o apoio dos Estados Unidos por uma afinidade ideológica, pelo antagonismo americano em relação à China e Rússia, e também por representar uma opção à parceria duradoura entre o narcotráfico latino-americano e o regime de Maduro. Além das três potências mundiais, países da América Latina também se envolveram na questão, com Argentina, Colômbia e Brasil alinhados à oposição e Cuba e Bolívia alinhados ao atual governo.

Este cenário evoca um tipo de conflito muito comum, principalmente na modernidade, como o da Ucrânia, do Iêmen e, principalmente, da Síria: as “Guerras Por Procuração”. Este é um termo que foi cunhado para descrever conflitos em que grandes potências se enfrentam de modo indireto em conflitos travados por terceiros, apoiando uma das partes com financiamento, treinamento, armas ou qualquer outro tipo de ajuda. Este tipo de conflito tem se tornado mais corriqueiro, já que as grandes potências cada vez mais evitam conflitos diretos, que são muito mais custosos em todos os sentidos. A guerra civil que se arrasta há mais de oito anos na Síria talvez seja o maior exemplo contemporâneo de Guerra Por Procuração. De um lado, o governo de Bashar Al-Assad, apoiado pela Rússia e pelo Irã, e, do outro lado, uma parte da oposição síria, apoiada pelos Estados Unidos e pela Arábia Saudita.

De volta à América do Sul, um dos temores é de que a Venezuela seja usada como tabuleiro de um jogo muito maior, principalmente em uma disputa entre russos, americanos, chineses e até iranianos. Apesar de um conflito armado ainda ser uma hipótese distante, as evidências de influência externa no país são latentes. Em janeiro deste ano, um grupo de mercenários russos foi enviado para fazer a proteção de Maduro e de seu círculo mais próximo. Em março, soldados russos chegaram ao país para atualizar e fazer a manutenção de equipamentos bélicos, além de treinar venezuelanos para operá-los. Do outro lado, Guaidó e a oposição venezuelana contam com o apoio declarado dos Estados Unidos, incluindo seguidas ameaças do presidente americano, Donald Trump, de intervir no país.

É imprescindível evitarmos que a Venezuela se torne uma Síria, mesmo que em menor escala. A comunidade internacional pode e deve pressionar por uma solução pacífica, que englobe instrumentos como, por exemplo, sanções econômicas. Já a opção da intervenção militar, funciona como poderosa dissuasão e deve permanecer sobre a mesa, mas com cautela, já que pode causar danos irreversíveis para todos os envolvidos no conflito e também a outros países da região. A solução para o impasse no país pode passar por uma mudança de lado dos militares, os grandes fiadores do regime. Essa é a solução mais ventilada no momento.

Apesar de ser a solução mais falada e simples, levando em conta a atual conjuntura, não há nenhuma garantia de que acontecerá logo, ou algum dia. A Venezuela tem um grande histórico de golpes de Estado que fracassaram por falta de apoio militar. Em 1992, Hugo Chávez, antes de ser eleito democraticamente, tentou tomar o poder à força, mas, com o apoio de apenas 10% das forças armadas, o intento fracassou. Em 2002, foi a vez de Chávez ser alvo de um golpe. Na ocasião, o ex-Presidente chegou a ser preso pelos rebeldes, mas o comandante do exército voltou atrás e a iniciativa foi por água abaixo. Além da Venezuela, quando olhamos outras crises ao redor do mundo, as forças armadas se mantiveram leais ao status quo em muitas ocasiões recentes: golpe de Estado na Turquia em 2016, Revolta no Bahrein em 2011 e a própria Guerra Civil Síria, desde 2010.

A queda de Maduro, portanto, pode não ser tão iminente ou tão fácil quanto muitos fazem parecer. A hipótese da intervenção militar externa é custosa e improvável. As altas patentes militares, por enquanto, não dão sinais fortes de defecção, e, na prática, são quem manda no país hoje em dia, sendo uma das únicas classes que se beneficia da atual situação.

Não podemos nos esquecer de que uma hipotética deposição de Maduro, apesar de ser um importante passo, está longe de solucionar os problemas do país. Seu sucessor enfrentará um trabalho árduo de recuperar uma economia quebrada, desintoxicar uma estrutura estatal doente e reconstruir uma sociedade deflagrada. Tarefas difíceis mas necessárias para que enfim possamos devolver a liberdade e a dignidade ao povo venezuelano, e a estabilidade e a tranquilidade para a região.

*Heni Ozi Cukier, cientista político, professor da ESPM, deputado estadual por São Paulo e líder da bancada do Novo

Tudo o que sabemos sobre:

ArtigoVenezuela

Tendências: