Vender para defunto

Vender para defunto

José Renato Nalini*

06 de março de 2021 | 13h00

José Renato Nalini. FOTO: WERTHER SANTANA/ESTADÃO

A peste veio para ficar. Os números não enganam. UTIs lotadas, contaminação galopante, mortes continuam crescendo. Já se vaticina que não haverá carnaval em 2022 e que as medidas de flexibilização tendem a ser revistas para imposição de maiores restrições.

Mesmo assim, o fanatismo continua a ridicularizar quem se propõe a refrear a aglomeração, estimular o confinamento, recomendar o uso de máscaras, a higienização constante e todos os demais cuidados necessários à fuga do maldito vírus.

Compreende-se que aqueles que vivem do consumo estejam apavorados. Se as pessoas não compram, não acabam os estoques. Se os estoques continuam abastecidos, a indústria tem de restringir a produção. É uma sucessão de choques em cadeia nociva para a economia.

Mas o que é a economia? É uma ciência social destinada a fornecer aos homens receitas para o adequado trato dos recursos. Não é uma ciência exata, muito pelo contrário. Ouvir os economistas é constatar o quão ilusória é a sabedoria humana. Anuncia-se uma coisa e acontece exatamente o contrário.

Sabe-se que a única forma de não contrair a praga virótica é evitar contato físico. Não respirar no mesmo espaço. Não contactar com alguém infectado. Essa a receita exclusiva. Não existe outra maneira de fugir ao vírus assassino. Verdade singela e fácil de assimilar.

Todavia, mais forte do que o medo do vírus é o vírus da cobiça, da cupidez, da ambição. É inadmissível para quem se alicerça sobre o dinheiro, admitir que há hiatos na História em que a preocupação tem de ser outra. A vida é mais valiosa do que a moeda. Por que se diz “enquanto há vida há esperança”? Porque no momento em que não existir mais vida, não há mais necessidade de dinheiro.

A revolta dos que se acham impedidos de continuar a exercer suas atividades rentáveis deveria se voltar contra o vírus. Toda a sua energia e o seu potencial econômico deveria se traduzir em atos concretos para adquirir vacinas, para auxiliar na logística da vacinação, para forçar o governo a ser responsável. Não: indignam-se contra aqueles que, em conduta responsável, coíbem aglomerações, impõem restrições aos ajuntamentos, elaboram escalas graduais de contenção e de liberação e alertam a população de que o momento é dramático.

Os órfãos do consumo perfilham a orientação negacionista de quem pretende arremessar o Brasil num violento caos, situação em que a racionalidade cederá espaço à barbárie. Para isso, armam-se hostes fanáticas. Quanto mais mortes, melhor.

Fará sentido governar sobre uma terra arrasada? Pode ser que a loucura seja tamanha, que nenhum argumento racional encontre eco na cabeça que só pensa em conservar o poder. A qualquer custo. Ainda que ele seja o de milhões de vidas humanas sacrificadas por incúria, falta de planejamento, irresponsabilidade e, por que não, premeditação.

Mas os empresários deveriam pensar diferente. Eles não são detentores de um poder contingente, que tende a terminar um dia, por mais que o suplício pareça distante de ter fim. Eles fazem funcionar a estrutura que sustém a vida. Precisam pensar no amanhã. Têm compromisso com a edificação de uma Pátria justa e solidária, conforme prometeu a Constituição Cidadã de 1988.

A empresa foi a instituição mais corajosa do século XX, pois suportou as vicissitudes do desvario governamental, que parece ter ojeriza ao lucro e a penalizou com toda a sorte de sanções. Ela sobreviveu a isso. Está sempre adiante do Estado, cujo ranço inerte o faz resistir à modernidade. A empresa é o atestado de que a humanidade “rodeou-se de arranjos singulares, não fortuitos, de átomos, chamados tecnologia, que inventa, reinventa e descarta quase continuamente” (Matt Ridley). O empresariado tem se servido da tecnologia para oferecer padrões insuperáveis de qualidade ao fruto do trabalho humano.

Toda essa história não pode ser arremessada à aventura de incentivar comportamentos que ponham em sério e grave risco o futuro da humanidade. É a ciência que recomenda prudência. Não é o governo, que parece não se importar se o circo pegar fogo.

O período é difícil, mas se houver disciplina e observância das cautelas inafastáveis, um dia tudo poderá voltar a uma quase normalidade. Se o estímulo a que o povo desatenda à ciência e continue a se aglomerar, a ficar em filas para comprar tênis, a participar de baladas, a se concentrar em praias, parques e lojas, os vendedores que se preparem. Terão de se estruturar para vender para defuntos.

Parece que morto não consome, portanto não compra. Não participa do jogo. Também não tem mais o que lamentar, pela incúria, irresponsabilidade ou ignorância dos que um dia serão mortos também.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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