Vencedora de leilão de energia renovável é investigada na compra de casa de Vaccari

Vencedora de leilão de energia renovável é investigada na compra de casa de Vaccari

Focus Infraestrutura, que em 2009 arrematou negócio de construção de usinas eólicas, posteriormente vendidas a empreiteira do cartel, pode ter sido origem de empréstimo suspeito de R$ 400 mil usado na compra da casa de ex-tesoureiro do PT, um ano antes

Redação

28 Abril 2015 | 14h00

Por Ricardo Brandt, Fausto Macedo, Julia Affonso

A força-tarefa da Operação Lava Jato investiga se uma empresa que construiu usinas eólicas no Nordeste, após vencer leilão do Ministério de Minas e Energia, em 2009, tenha sido a origem de parte do dinheiro usado pelo ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto na compra da casa, em 2008, onde a família mora, em São Paulo. Os parques eólicos foram posteriormente adquiridos pela empreiteira Queiroz Galvão, investigada pela Lava Jato.

A Focus Infraestrutura e Participações S.A. tem sede no Rio e era alvo de investigação desde o ano passado por supostamente ter mantido relações comerciais com a lavanderia de dinheiro usada pelo doleiro Alberto Youssef e pelo ex-deputado federal José Janene (morto em 2010) – peças centrais da Lava Jato.

Vaccari quando foi levado para depor coercitivamente em fevereiro na sede da PF em São Paulo. Foto: Felipe Rau/ Estadão.

Vaccari quando foi levado para depor coercitivamente em fevereiro na sede da PF em São Paulo. Foto: Felipe Rau/ Estadão.

Por meio de quebra dos sigilos bancários e fiscais, os investigadores encontraram indícios de que a Focus possa ser a origem do empréstimo de R$ 400 mil que entrou na conta da mulher de Vaccari, Giselda Rousie de Lima, em 2008, e cobriu a compra do imóvel.

A casa, localizada na Alameda Parintins, em São Paulo, foi onde o ex-tesoureiro foi preso na quarta-feira, 15, por policiais da Lava Jato. Vaccari é acusado de operar propina para o PT, por lavagem de dinheiro, ocultação de patrimônio e enriquecimento ilícito.

Sua mulher, a filha Nayara e a cunhada Marice Corrêa de Lima são suspeitas de servirem como auxiliares nessas operações financeiras e na ocultação de patrimônio ganho com recursos desviados da Petrobrás.

Quebra de sigilo mostrou que os R$ 400 mil depositados na conta de Giselda saíram da CRA (Centro de Reprodução das Américas – Comércio de Produtos Agropecuários Ltda).

Além de “não possuir capital e movimentação financeira”, a CRA está registrada em nome do advogado Carlos Alberto Pereira da Costa – laranja de Alberto Youssef no esquema de corrupção na Petrobrás -, mas era usada pelo empresário Cláudio Mente, ex-sócio do então deputado José Janene (morto em 2010).

“A análise das operações bancárias antecedentes ao repasse (…) evidencia que seis dias antes a mesma conta da (CRA) recebeu depósito de cheque no valor de R$ 540 mil, da conta da Focus Insfraestutura”, registra documento do MPF.

trecho relatório sobre focus giselda

Eólicas. A Focus, aberta em junho de 2005, constituiu no ano de 2008 a Energio Nordeste Energias Renováveis, sociedade anônima de investimentos na área de energia renovável, que captou recursos via fundos de investimentos para montar centrais eólicas.

Segundo relatório pericial do Ministério Público Federal, os R$ 540 mil “são oriundos de uma TED (transferência) do banco Santander, em 24 de setembro de 2008, no valor de R$ 22,6 milhões”. “Aplicados e resgatados periodicamente para fazer saldo para os pagamentos, entre os quais aquele para a CRA Comércio de Produtos Agropecuários”, informa o documento da Lava Jato.

VEJA A ÍNTEGRA DE ANÁLISE DO MPF SOBRE FOCUS E GISELDA ROUSIE DE LIMA

Oficiado, o banco informou que os R$ 22,6 milhões recebidos pela Focus eram “referentes à venda de ações de emissão da Energio Nordeste Energias Renováveis para o Fundo de Investimento em Participações Nordeste Energia”. 

Veja esquema montado em análise do MPF

Veja esquema montado em análise do MPF

Leilão. A Energio foi uma das vencedoras do leilão realizado, em 2009, pelo Ministério de Minas e Energia para venda futura de energia. As concessões foram homologadas pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).

A Focus informou, via assessoria de imprensa, que em dezembro de 2009, após “rigoroso processo de habilitação técnica e financeira” a Energio venceu Leilão de Energia de Reserva (LER) para comercializar 481,8 mil MWH anuais de energia por um prazo de 20 anos, via Central Geradora Eólica Taíba Águia S/A.

Em 2012, as geradores de energia eólicas que ainda não tinham entrado em funcionamento foram vendidas para a Queiroz Galvão – uma das 16 empreiteiras do suposto cartel acusado de corrupção na Petrobrás.

A Focus, depois que vendeu o projeto para a Queiróz Galvão, afastou se do setor, segundo cláusula prevista no negócio.

VEJA DOCUMENTO DO BANCO SOBRE VALORES MOVIMENTADOS PELA FOCUS EM 2008

O controlador da Focus (Energio) é o empresário Raul Barrozo Motta Júnior. Ele é investigado pela Lava Jato por conta do repasse de valores para a CRA e por suas supostas relações com outros investigados pela força-tarefa.

Um dos sócios do grupo até 2010 foi Rubens de Andrade Filho, réu de um dos processos da Lava Jato como sócio de Janene neste período em que foram identificadas as movimentações envolvendo a CRA e Vaccari.

A Focus confirmou que em 13 de novembro de 2008 “emprestou R$ 540 mil ao sr. Claudio Mente, através de três cheques de R$ 180 mil cada” e diz que “desconhecia o destino posterior dado a esses recursos”.

“Tanto o referido empréstimo como a devolução integral em abril, maio e junho de 2009 foram contabilizados e informados à Receita Federal”, informou a Focus, por meio de assessoria de imprensa.

“A Focus refuta que tenha tomado qualquer iniciativa com objetivo deliberado de envolvimento com o sr. Vaccari e a sra. Giselda na operação para compra de um imóvel ou qualquer outra operação.”

A empresa explica que o recebimento dos R$ 22 milhões naquele ano referente à venda de participação societária nos negócios foi “regular e devidamente lançada na contabilidade e disponibilizada à Receita Federal”.

COM A PALAVRA, A DEFESA

JOÃO VACCARI NETO
Vaccari, por meio do criminalista Luiz Flávio Borges D’Urso, afirma que toda movimentação bancária e patrimonial entre ele e a família, tem explicação, “origem lícita”.

Convocado para depor na CPI da Petrobrás, no Congresso, no dia 9, o ex-tesoureiro do PT afirmou que emprestou R$ 400 mil de um amigo, chamado Claudio Mente, para cobrir a compra da casa.

Segundo Vaccari, a compra da casa foi feita considerando o valor que entraria da venda do antigo imóvel onde ele residia.
“Não consegui vender outro imóvel a tempo e por isso pedi empréstimo a Claudio. O empréstimo foi liquidado em 2009”, disse Vaccari, ao ser ouvido pelos parlamentares.

FOCUS INFRAESTRUTURA
A Focus (Energio) afirma, por meio de sua assessoria, que “não depositou R$ 540 mil em favor da CRA”.

“Em 13 de novembro de 2008, a Focus emprestou R$ 540 mil ao sr. Claudio Mente, através de três cheques de R$ 180 mil cada. Desconhecia o destino posterior dado a esses recursos. Tanto o referido empréstimo como a devolução integral em abril, maio e junho de 2009 foram contabilizados e informados à Receita Federal.”

“A Focus refuta que tenha tomado qualquer iniciativa com objetivo deliberado de envolvimento com o sr. Vaccari e a sra. Giselda na operação para compra de um imóvel ou qualquer outra operação.”

De fato, em 5 de setembro de 2008, A Focus recebeu R$ 22 milhões do FIP Nordeste Energia, referente à venda de participação societária regular e devidamente lançada na contabilidade e disponibilizada à Receita Federal na época.

A empresa, por meio de assessoria, diz que “não entende por que relacionar esse recebimento ao empréstimo feito ao Sr. Claudio Mente. Tal vinculação não tem o menor fundamento, tendo em vista que o empréstimo aconteceu e foi devolvido”.

Motta Junior disse, por meio da assessoria, ter conhecido Janene, “mas nunca teve relacionamento comercial ou pessoal com ele”.

A Focus afirma ainda que desde 2010, Rubens Andrade – que teria sido acionista da Focus – não tem mais relacionamento com a empresa.

A empresa também negou relação societária com empresas e pessoas ligadas à lavanderia de dinheiro de Youssef.

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