Vamos nos tornar uma geração de baby zoomers no pós-pandemia?

Vamos nos tornar uma geração de baby zoomers no pós-pandemia?

Fábio Tadeu Araújo e Marcos Kahtalian*

17 de agosto de 2020 | 12h30

Fábio Tadeu Araújo e Marcos Kahtalian. FOTOS: DIVULGAÇÃO

As notícias da morte do escritório têm sido um pouco exageradas – eis uma paráfrase, equada para o momento, de uma famosa frase do escritor norte americano Mark Twain. De fato, a pandemia do novo coronavírus vem tendo efeitos tão devastadores sobre a saúde e economia das sociedades que é tentador interpretar alguns impactos
imediatos como sendo definitivos. Por exemplo, quando se fala sobre o universo do trabalho, não há mais dúvida entre as pessoas de que o home office veio para ficar.

Empresas — sobretudo as de grande porte, paradigmáticas para apontar novos rumos para a economia — vêm diariamente a público afirmar que todos ou a maior parte de seus funcionários administrativos permanecerão em trabalho remoto caseiro de forma definitiva. Há certo encantamento com os benefícios advindos do trabalho feito em casa como a economia de tempo no deslocamento dentro dos grandes centros urbanos, a proximidade com a família e mesmo alguma avaliação de incrementos de produtividade em alguns segmentos, sem falar da óbvia economia de custos locacionais.

Tudo isso é verdade, porém é uma verdade parcial. Não sabemos exatamente o que será a sociedade assim que o processo de imunização estiver em andamento e, do mesmo modo como já ocorreu com outras pandemias no passado, as cidades e os aglomerados urbanos continuarão a exercer um tremendo papel sedutor para a aglutinação de mentes e enclaves criativos. Simplesmente amamos as cidades e a vida em grupos sociais.

“Ah, mas desta vez é diferente, já que hoje a tecnologia permite o trabalho à distância”, alguém pode dizer. Mas o trabalho remoto veio para ficar porque já vinha para ficar. A tendência do trabalho à distância foi acelerada, mas seguramente qualquer executivo poderá dizer que grande parte do seu trabalho já era feito em horários e locais
totalmente distintos do escritório tradicional. O que não significa que o escritório morreu. Será preciso cantar os benefícios do escritório para aqueles que já o esqueceram?

Em primeiro lugar, é um local integralmente feito para se trabalhar, o que não é pouca vantagem. Ou seja, desde mobiliário adequado — pergunte quantas empresas tiveram que emprestar cadeiras ajustáveis para funcionários — até equipamentos disponíveis, de alta qualidade e confiabilidade, com acesso pleno, conexão com ótima performance e sistemas robustos. Além da segurança e controles de trabalho com constante suporte.

Não é certo que para todos os trabalhadores o home office esteja sendo as mil maravilhas que se apregoam. Há relatos corriqueiros na imprensa, em muitas famílias, de um hell office.

Talvez, nessa visão paradisíaca do home office ocorra um pouco da leitura enviesada: uma visão faria limer por adição, no seu maravilhoso escritório em casa, ultra moderno e equipado, quase um gabinete vetusto, a antiga biblioteca dos casarões do passado, contra a imensa maioria de trabalhadores de escritório com condições em geral muito precárias para esse tipo de trabalho.

Tanto é que a justiça brasileira — sim, ainda existe a justiça brasileira do trabalho, não nos esqueçamos — já deu ganho de causa para trabalhadores em algumas decisões, exigindo das empresas uma contrapartida financeira ou adequação para o trabalho em casa. Correto, pode-se dizer. Ou seria o caso de transferir o ônus dos custos de trabalho para o funcionário, sem compensação adicional alguma?

Além disso, mais que máquinas, sistemas e mobília, os escritórios são lugares de fomento de cultura corporativa, de troca de ideias, experiência e o incentivo às inovações. Até mesmo as longas discussões, por vezes improdutivas, podem gerar momentos de grande inventividade.

Contratar e integrar algum funcionário novo, que não partilhe da cultura da empresa, é uma tarefa árdua de ser feita à distância, longe da convivência cotidiana do escritório. Fazê-lo entender o que é a empresa para a qual foi contratado, quais são os seus valores, sua lógica de existir e seu modo de operar são tarefas importantes, quiçá as
mais fundamentais do trabalho em equipe.

Vale ainda salientar outro benefício do escritório: a valoração da comunicação humana interpessoal direta, ou seja, simplesmente o conjunto de códigos e símbolos que tornam o processo mais fluido. No momento, está muito mais difícil de tocar processos simples de supervisão e de orientação de trabalho. Tudo precisa ser acionado por meio de videoconferência. Dentro de um ambiente corporativo comum, bastaria ao líder reclinar-se sobre a mesa, fazer uma observação direta, dar um detalhamento mais próximo para que se chegasse a um entendimento comum com o funcionário.

Não se trata de exagero ou fobia tecnológica: a comunicação pessoal face a face é, de longe, a mais efetiva forma de construção de laços de relacionamento e de confiança recíproca. Até ontem ainda estávamos na caverna. Não somos, até o momento, umageração de baby zoomers. Ressalte-se que, no caso brasileiro, a intensa oralidade e o
papel corporal de nossos códigos comunicacionais assumem um peso importante em nossas culturas de trabalho em equipe.

Não estamos querendo ou imaginando que tudo será igual como antes. Não será assim, porque já não era assim. O que a pandemia fez foi escancarar o que já acontecia. O novo escritório será parte presencial, parte à distância, possivelmente com horários e dias flexíveis.

O que apostamos é em uma maior racionalização com uso mais eficiente do espaço corporativo, para ser verdadeiramente colaborativo e não apenas, como muitas vezes vinha sendo, um espaço de controle de horários. Por exemplo, a pandemia está ensinando que podemos trabalhar em horários distintos, então será que faz sentido
todos chegarem e saírem no mesmo horário do escritório, todos os dias? A pergunta é retórica.

A densidade nos escritórios deve ser menor, e a ocupação deve ser menos intensa para ser mais criativa e colaborativa. O fato de muitas empresas já estarem migrando para formas de coworking indicava mesmo essa tendência mais flexível que o trabalho de escritório exige. O velho escritório, cansado, velho de guerra, este morreu. Viva então o novo escritório, assim que condições melhores permitirem.

*Marcos Kahtalian e Fábio Tadeu Araújo, professores e sócios da Brain Inteligência Estratégica

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