Vamos mudar o mundo?

Vamos mudar o mundo?

José Renato Nalini*

09 de março de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: IARA MORSELLI/ESTADÃO

Pessoas insatisfeitas mudam o mundo. A inovação é inspirada por pessoas insatisfeitas com o estado atual das coisas. E se houver um “insatisfômetro”, talvez não haja povo mais insatisfeito, no dia de hoje, do que o brasileiro. Tem todas as razões para estar descontente. É preciso frisar o que está acontecendo?

É certo que não temos condições de mudar o planeta. Mas temos, sim, condições de mudar o ambiente em que estamos. Nossa casa, nossa família, nosso trabalho, nossa rua, nosso bairro.

Se os acontecimentos têm o condão de transformar as pessoas, dispomos agora de inúmeras ocorrências e eventos, quase todos nefastos, a clamar por nossa reação. Como estamos reagindo à peste? Afeta-nos saber que a cada dois minutos, um brasileiro procura socorro num hospital, unidade de saúde ou pronto atendimento?

Faltam líderes para nos animar. O brasileiro está exausto e desiludido. Acreditou em falsas promessas e já não consegue acreditar em ninguém. Sejamos nossos próprios líderes. Ajamos como gostaríamos que eles agissem.

Tenhamos foco. O que é mais necessário neste momento? O que eu posso fazer na direção do melhor projeto? Sou causa da solução ou sou causa do problema? Lamentar é insuficiente. Um mínimo de ação é urgente, principalmente quando se está num estágio de verdadeira guerra.

Atuar, no limite de nossas capacidades, é o que se espera de quem tem juízo. Pensar em estratégias singelas, mas voltadas ao trato racional das questões mais trágicas, táticas imprescindíveis quando predomina a irracionalidade.

Por exemplo, uma regra de três: 1. Focar. Identificar o problema, adotar a solução e disseminar essa ideia no seu círculo de influência; 2. Sentir. O momento exige que a emoção envolvente de todas as pessoas sensíveis, seja um impulso para formar coesão e trabalhar em equipe; 3. Encorajar: no momento de elevado descrédito, desconfiança das autoridades, desalento quanto à Democracia Representativa, a mudança tem de residir na consciência cidadã. Cada indivíduo faz a diferença.

Aqueles que conseguiram preservar a lucidez, têm uma missão complementar. Um plus se exige deles. Parece que há uma legião de zumbis ou de desacordados, inebriados, anestesiados e incapazes de pensar. É mais do que urgente conscientizar as pessoas de que situações excepcionais exigem posturas também excepcionais. Para persuadir os céticos, é preciso uma conexão amistosa e cordial. Não adianta hostilizar quem pensa diferente. A comunicação é o traço de união entre comunicabilidade e confiança. Se não temos a chave para fazermos com que todos gostem de nós, ao menos podemos tentar fazê-los acreditarem em nós.

É preciso usar a lógica, evidenciar uma argumentação racional, sendo claro e objetivo. Muitas pessoas podem não ter ideia da gravidade do que se está enfrentando. Números, estatísticas, imagens, tudo serve para persuadir o incauto. Se ele, mesmo assim, não quiser acreditar, você ao menos estará com a consciência tranquila. Fez sua parte.

Comunicar-se abertamente, constantemente. Não é possível permanecer calado. O essencial é traduzir com linguagem singela uma ideia complexa. Sem acusar os omissos, os criminosos, os insensíveis. Mas apontar para possíveis encaminhamentos. Qual a alternativa para a situação não piorar?

O início de uma conversa difícil é ouvir. Saber ouvir. Muita gente fala, pouca gente tem paciência para ouvir. Quem não consegue ouvir, não tem empatia nem capacidade de envolver o interlocutor. O efeito emocional suscetível de ser provocado é muito maior do que se pode imaginar. Falar com clareza, convicção e compaixão, é uma chave para conseguir a adesão daqueles que você quer convencer. Lembrar-se que não existe a hipótese de se comunicar com excesso. A regra é a falta de comunicação.

Quando há uma cegueira para muitos, miopia para outros, surdez generalizada e um vozerio de tom insuportável, a disseminar aleivosias, ofensas e injúrias, os guias da multidão devem ser redobrar. Lembrar que a comunicação é um processo complexo. Não bastam as palavras. A mensagem está na postura de quem se comunica. Olhos, expressão facial, movimentação do corpo, o papel das mãos, o tom e o volume de voz, o senso de humor, tudo constitui a mensagem.

E a mensagem de que o mundo precisa hoje é o de um pouco de comiseração pelo desvalido, exigir do Estado que ele cumpra a missão para a qual ele foi preordenado, ou não se justifica a sua existência. Esta pandemia não é a última. Talvez, aquela capaz de nos alertar sobre nossa fragilidade e a adoção de novos métodos de conviver. As fronteiras entre os países praticamente já não existem para uma parcela considerável do que nos interessa. Mas há fronteiras fortes entre pensamentos antagônicos, fanatismos de sinais diferentes, fundamentalismos genocidas e outras vertentes da mutação viral da perversidade.

Ensinar os homens a enfrentar esses desafios e semear o bem e o respeito, recordando a todos o valor da dignidade humana, é a única mudança pela qual o mundo está a clamar.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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