Vamos juntos?

Vamos juntos?

Tabata Amaral*

27 de agosto de 2018 | 05h00

Tabata Amaral. FOTO: DIVULGAÇÃO

Minha geração acordou para a realidade de que o Brasil é um país injusto e desigual e que temos que agir. Convivemos com resquícios de um passado aristocrático, escravocrata e patriarcal. Basta ver os privilégios que persistem e são para poucos. A imensa maioria das pessoas vive sem dignidade e sem oportunidades. Para onde foi o sonho dourado de um Brasil forte e justo?

Sabemos, de antemão, que a batalha a enfrentar tem seu ponto de partida no campo das mentalidades. Há que arejar o pensamento. A homofobia, o feminicídio, a ausência de representação de identidades raciais e de gênero nos postos-chave das empresas, no Congresso, nos Executivos são provas cabais de um conservadorismo impensável em pleno século 21.

E não adianta dizer que estamos dispostos a cumprir cotas! Vai muito além disso. Mesmo representando mais da metade da população brasileira, os negros são uma parcela mínima dentre os deputados eleitos. A representação feminina cresceu ligeiramente, mas as mulheres continuam ocupando menos de um décimo dos cargos legislativos federais.

O debate público sobre as eleições de outubro está contaminado pelo Fla-Flu dos antagonismos. Que projeto de Brasil está em discussão? Vivemos um retorno às trevas e ao dogmatismo inadequado para a fraternidade civilizatória esperada. É um jogo de faz de conta.

O País precisa de práticas partidárias mais democráticas e transparentes, tanto em sua gestão quanto no seu financiamento e os partidos devem ter propostas objetivas e que promovam a renovação de lideranças, com representação de identidades raciais e de gênero que reflitam o Brasil.

Minha infância foi dura. Minha família lutou e luta ainda por viver dignamente. Venho da Vila Missionária, periferia de São Paulo. Minha origem não me envergonha – me orgulha. Mas olho hoje para meus vizinhos, meus amigos e sinto que fui afortunada. Nem todos tiveram ou terão a minha sorte. E essa não pode ser a realidade: esperar por um resgate social, como obra do acaso e de boas intenções. É preciso construir o futuro.

A educação foi o que mudou a minha vida. Ganhei bolsa de estudo, fui para Harvard, me formei em astrofísica e ciência política e voltei ao Brasil. Recusei ter lá uma vida tranquila, com propostas concretas de emprego, porque conclui ser aqui que devo trabalhar. Criei, junto com amigos, o Mapa Educação, mas vi que as mudanças só se consumam pela via política.

Sou co-fundadora do Movimento Acredito, que lançou 24 candidaturas ao Legislativo, dentre estas a minha. O RenovaBR, desde 2017, vem formando lideranças de diferentes opiniões e partidos, mas que têm em comum a crença de que política é lugar de honestidade, diálogo e dedicação.

A exemplo dos nossos grupos, outros surgirão. Os jovens vão tomar o futuro do Brasil em suas mãos. Começamos essa dura e árdua luta em 2013, ocupando escolas. Não vamos parar. Mas precisamos de organização. E a política é o modo de fazer a revolução. Precisamos acreditar que é possível fazer política limpa, a política como deve ser de verdade, voltada para os interesses da sociedade. Negar a política é dar força aos que até agora esqueceram o compromisso com o País e a nossa geração.

Ajudar a pensar políticas públicas para mudar a vida de gente como eu será meu imperativo. Esse foi o apelo que me levou a transformar minha militância na área da educação em uma candidatura à Câmara Federal. Já sabemos que não basta conquistar o direito de ir à escola. É preciso avançar.

Queremos educação de qualidade para todos, independente de cor, gênero e endereço. Hoje, frequentar uma escola não significa aprender, assim como ter mais tempo de estudo não significa necessariamente êxito, prosperidade, oportunidades. O ensino público é, no geral, de baixa qualidade e desfocado da realidade do mercado de trabalho para o jovem.

A geração de políticas de inclusão não deve visar unicamente os pobres, mas igualmente as mulheres e as minorias étnicas e raciais e romper preconceitos. É lá, no Legislativo, que vamos pensar sobre tudo isso.

A exclusão social no Brasil deve ser tomada como uma questão multidimensional, pois está atrelada tanto às desigualdades econômicas, quanto políticas, culturais, étnicas e etárias. O mercado de trabalho exclui, a falta de moradia digna exclui, a insegurança exclui e, idem, a saúde de baixa qualidade, dentre outros problemas. Entre 2016 e 2017, o País apresentou um aumento de 11,2% no número daqueles que se encontram em situação de pobreza extrema, equivalente a 14,83 milhões de pessoas.

Assistimos ao genocídio da juventude negra. Erramos com as drogas. A sucessão recente de escândalos nos achata, rouba nosso destino e traz descrença sobre o futuro. Diante da raiva, da indignação e da tristeza, nós, os jovens, precisamos escolher agir.

Chega de reclamar. Diagnósticos temos aos montes. O que falta não é o conhecimento dos problemas, mas coragem para encarar os desafios que podem nos colocar nos trilhos do desenvolvimento. Vamos resgatar o sonho dourado de um Brasil forte e justo. Eu tenho coragem. Vamos?

*Tabata Amaral é ativista pela educação. Graduada em Ciências Políticas e Astrofísica por Harvard, é cofundadora do Movimento Acredito e do Mapa Educação

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