Vamos falar sobre sexo?

Vamos falar sobre sexo?

*Ronaldo Ferreira Júnior

07 de julho de 2021 | 20h34

Sexo é um assunto que está sempre presente nas rodas de conversa informais entre amigos, no ambiente social ou corporativo. Este tema é tão relevante e mexe tanto com a gente, que alguns se arriscam até a afirmar que ele move o mundo. Mesmo sendo tão comum, falar sobre sexo de forma responsável ainda é delicado.

Ronaldo Ferreira Júnior. Foto: divulgação.

Historicamente o assunto é tabu, um tema a ser evitado. Mas hoje, com a constante exposição das pessoas, de suas vidas, gostos e escolhas pessoais, questionamos sobre os padrões normalizados de pensar sexualidade: será que promovem a saúde e o bem-estar? Aliás, sexo é algo que mexe com valores muito pessoais, e pode influenciar o nosso comportamento nos relacionamentos, inclusive impactando nossa performance no mundo corporativo.

Pensei muito antes de escrever este texto, pois a ideia não era criar uma espécie de bula. Quero compartilhar uma reflexão sobre o assunto. Afinal, se o sexo move o mundo, por que não o utilizarmos como poder para mover outras coisas, inclusive os negócios? Mas, claro: uma coisa é a gente entender, processar e ter conhecimento sobre o assunto. Outra coisa é a nossa cultura e a forma como fomos criados, que se manifesta no dia a dia sobre diversos assuntos ligados à sexualidade humana.

E nestes tempos de celebrar a diversidade com seus diferentes biotipos, orientações sexuais, identidades de gênero, entre tantas outras características, é necessário ter a coragem de entender os impactos reais deste substantivo de quatro letras, mapear todas as lições positivas que ele traz, e quais impactos causa em nossa vida pessoal e profissional.

Educação sexual

Para os especialistas, é em casa que devemos começar a mudar essa cultura. Nascemos curiosos e ávidos a perguntar sobre tudo, mas, quando o assunto é sexo, logo somos desencorajados a perguntar. Manifestar nossas dúvidas constrange os adultos, e ficamos com a impressão de que falar sobre sexo é tentar entender sobre algo feio, errado, algo que “não é natural”. A escola também evitou o assunto durante anos e, portanto, não conseguiu nos proteger de vários sofrimentos e vieses.

O resultado desta omissão é que, ao não encararmos esse desafio, deixamos de discutir formas de evitar gestações na adolescência, de alertar os jovens sobre DSTs e como evitá-las de forma segura, não conversamos sobre as diferenças entre a identidade de gênero e a orientação sexual, ignoramos pontos fundamentais sobre nós mesmos. Isso nos fragiliza e, ao mesmo tempo, fortalece vieses e preconceitos que aumentam as violências e opressões a tudo que desconhecemos. Os mais confiantes de sua sexualidade vivem melhor e quase sempre estarão um passo à frente.

A OMS (Organização Mundial de Saúde), alerta que onde a educação sexual é levada a sério, a iniciação sexual é postergada. Ao conhecer, fazer trocas e entender sobre o assunto, os jovens desenvolvem mais autonomia e discernimento para definir como, com quem e quando devem iniciar a sua vida sexual. E por este papo não acontecer em muitas famílias ou escolas, não há sensibilização sobre a importância do respeito ao outro e a si mesmo, assim, a maioria das pessoas chega no mundo corporativo cheia de vieses e enfrenta dificuldades em lidar com quem é diferente do que lhe foi mostrado como modelo do “normal”.

Ambiente corporativo

Há consenso de que um adulto, com ou sem educação sexual na infância/adolescência, deveria entender que toda forma de amor é melhor que o desamor. Deveria estar apto a livrar-se da armadilha de querer controlar a vida sexual alheia. Deveria entender que qualquer tipo de relacionamento consensual é legal e muito bem-vindo e não deve ser considerado um problema a ser resolvido. As novas gerações que chegam no mercado de trabalho buscam espaços seguros e relações de respeito e ética – onde o bem-estar e prazer alheio não são questionados. Elas acreditam em uma sociedade mais informal, com menos regras e baseada em relações. E, neste sentido, o futuro é libertador.

Fomos educados a entender que toda forma de amor, todo corpo ou todo desejo fora do “padrão” deveria ser evitado, apagado. A questão é: que padrão é esse? Se somos todos tão diferentes, como conseguimos estabelecer padrões tão rígidos para delimitar nossas vontades e desejos?

Hoje o conhecimento nos mostra que o padrão nos foi ensinado, imposto por um sistema. E que isso acontece por critérios políticos e econômicos, não são escolhas naturais. Fomos motivados a acreditar e organizar uma sociedade “perfeita”. Assim, de alguma maneira, conhecemos a monogamia, o casamento heterossexual, o celibato e várias outras instituições que organizam a clássica sociedade contemporânea, mas será que esse modelo ainda faz sentido?

Somos padrões de quê?

Para mostrar o quanto somos, pensamos e agimos de formas diferentes, é só observar o comportamento das pessoas quando estão vivendo de forma verdadeira no ambiente cada vez mais “volátil” das redes sociais. Uma pesquisa interna do app Ashley Madison, que tem no Brasil cerca de 12,5 milhões de homens e mulheres casados interessados em buscar aventuras fora de casa, mostra que desde o início da pandemia, o aplicativo recebeu 1,7 milhão de novos membros no país que se identificam com o slogan: “A vida é curta. Arranje um caso”.  Você pode estranhar e até não concordar, mas eles seguem ganhando 20 mil novos membros por dia. Estão errados?

O fato é que somos diferentes. Quando aceitamos isso, conseguimos nos livrar dos padrões irreais e parar, por exemplo, de sexualizar a figura de uma pessoa negra ou de enxergar uma pessoa trans como um exótico objeto de desejo, ou então de rotular as mulheres como subordinadas aos desejos masculinos.

Mas, para que isso aconteça, temos que falar mais e de forma mais construtiva sobre como o sexo e os padrões andam influenciando nossas escolhas. Quando não falamos, não questionamos e por isso não ressignificamos as coisas, apoiamos o que acontece de forma passiva, somos mantenedores de padrões comportamentais que excluem e afetam negativamente as outras pessoas.

Os (d)efeitos de não falar sobre sexualidade

A pesquisa “Hostilidade, silêncio e omissão”, realizada pelo GP – Grupo de Planejamento, revelou que 97% dos colaboradores afirmam que há assédio sexual no ambiente das agências e empresas de comunicação. Outros dados alarmantes: 86% das mulheres e 76% dos homens afirmam ter sofrido assédio moral; 51% das mulheres e 9% dos homens afirmam ter sofrido assédio sexual. Assédio é tema sensível para as empresas porque diminui a produtividade das equipes e impacta diretamente os resultados do negócio, gera aumento de turnover, adoecimento entre colaboradores, são diversos desgastes, todos processos danosos às pessoas e à marca.

O Grupo Gay da Bahia informa que, a cada 19 horas, uma pessoa da comunidade LGBTQIA+ é morta em nosso país. Segundo a Rede Trans Brasil, a cada 26 horas, aproximadamente, uma pessoa trans é assassinada. A expectativa de vida dessas pessoas hoje, não ultrapassa os 35 anos: pelo 12º ano consecutivo, o Brasil é o país que mais assassina transexuais no mundo. Isso está além do mercado de trabalho convencional, mas as empresas têm responsabilidade quando decidem pela não contratação.

Segundo a Antra, 72% dos assassinatos em 2020 aconteceram contra travestis e mulheres transexuais que eram profissionais do sexo. A pesquisa mostra que o preconceito, a falta de oportunidades e a escassez de políticas públicas fazem com que essas mulheres encontrem na prostituição a única forma de sobrevivência.

Agora, em 2021, os canais de denúncia contra os Direitos Humanos (Disque 100 e Ligue 180) recebem um registro de violência contra a mulher a cada cinco minutos – 72% destas denúncias foram de violência doméstica e familiar. A maioria das vítimas são mulheres declaradas como pardas, de 35 a 39 anos, com renda de até um salário mínimo. O perfil mais comum dos suspeitos é de homens brancos de 35 a 39 anos. Os institutos Locomotiva e Patrícia Galvão informam que 97% das mulheres declararam ter sofrido assédio no transporte público e privado no Brasil.

Não silenciar! Educar é único caminho

Os números apresentados são alarmantes e, claro, impactam diretamente o mundo corporativo. Por tudo o que deveríamos ter aprendido, agora precisamos correr atrás para evitar esses índices tão absurdos. São dados tão expressivos, que colocam um spotlight em quem se mantém omisso, porque se não reagem, dão licença tácita aos agressores.

Não dá mais para usar o álibi da ignorância para praticar ou desconhecer o preconceito que presenciamos diariamente. Hoje e cada vez mais, o conhecimento permite que a gente entenda as diferenças e quebre esses tais padrões impostos, ao contrário de só nos escandalizarmos com o que é novo (novo para alguns, apenas). Precisamos urgentemente liderar o processo de transformação, criando uma nova cultura de aceitação das diferenças.

Porque, enquanto não transformarmos essa dura realidade, as consequências continuarão a ser cruéis, tanto na vida pessoal quanto na profissional das pessoas que não se encaixam nos modelos normalizados, por serem mulheres, negros, da comunidade LGBTQIA+, pessoas com deficiência, pessoas com mais de 50 anos, entre tantos grupos oprimidos e minorizados. Temos que mudar a cultura predatória na qual muitas vezes somos os algozes, mas que pode a qualquer momento nos tornar as próximas vítimas.

*Ronaldo Ferreira Júnior é conselheiro da Ampro – Associação das Agências de Live Marketing, CEO da um.a #diversidadeCriativa – empresa especializada em eventos, campanhas de incentivo e trade, e sócio-fundador com a Pearson Educacional do programa de capacitação MDI – Mestre Diversidade Inclusiva

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