Vamos encontrar ânimo

Vamos encontrar ânimo

José Renato Nalini*

14 de abril de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: IARA MORSELLI/ESTADÃO

Recebo o “Le Monde” que uma amiga de Paris me encaminha. O jornal diz que há algo de podre no reino do Brasil. Critica o desmantelamento da estrutura da Lava-Jato. Fala que à catástrofe ambiental orquestrada impiedosamente, adicionou-se uma economia em frangalhos, a ideologia pondo a política na UTI e a Covid19. A tempestade perfeita.

Não era necessário que os franceses nos dissessem o que se passa no Brasil. A imensa maioria tem noção da tragédia. Recente pesquisa apurou que dois em cada três brasileiros acreditam que a situação econômica do país vai piorar e muito. Em dezembro de 2020, eram 41% os que assim pensavam. Em março de 2021, chegam a 65%.

Em compensação, os que esperam melhora são 11%, enquanto eram 28% em dezembro último. A inflação do mês de março foi a mais alta para os alimentos. Sintoma de que as expectativas do setor econômico vão se frustrar.

O pessimismo das mulheres é maior – 71% – o que é explicável. São elas que vão aos supermercados. Evidente que os desempregados atinjam a maior incidência de desânimo: 72%. Para 77% dos brasileiros, a inflação vai voltar. E 38% dos entrevistados vão recorrer ao auxílio emergencial.

Não está bem na cena o nosso Brasil. Isso explica ter caído da 29ª para a 41ª posição, no ranking da felicidade. Como se fora possível avaliar a felicidade de um povo. Mas é um trabalho coordenado pelo economista Jeffrey Sachs, diretor do Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Colúmbia, junto com o Centro de Pesquisa de Bem-Estar da Universidade de Oxford. Enquanto a Finlândia continua com o cetro, do país cujo povo atinge o grau máximo de satisfação, o Brasil agora vem despencando.

Compreensível esse desalento. Aquilo que já não vinha bem piorou bastante. Mas talvez seja a oportunidade para os brasileiros lúcidos tomarem brio e exigirem compostura do governo.

Uma nação de iletrados não tem tradição democrática de onde extrair alento. Fomos colônia da qual tudo se extraia e nada para cá se trazia, durante mais de trezentos anos. Enquanto os países ibero-americanos já possuíam Universidade desde o século XVI, nós só tivemos Universidade mesmo, no século XX. Havia, é claro, algumas faculdades desde o século XIX. Três séculos de atraso explicam muita coisa.

Fomos dos últimos a abolir a escravidão. Não cuidamos de absorver aqueles que amamentaram nossas elites e de incorporá-los à cidadania. Continuou a mentalidade irracional de distinguir entre senhor e servo.

A lenda do “brasileiro cordial” não se sustenta, diante de tantos episódios cruentos que a História registra. Praticamos genocídio desde o século XVI, pois acabamos com inúmeras etnias indígenas. Nunca respeitamos o verdadeiro dono da terra. Ou aquilo que aprendemos com os romanos, de que a ocupação é título de domínio, não vale para os índios?

Não soubemos preservar nosso maior patrimônio: a exuberante biodiversidade de nosso verde. Primeiro acabamos com a Mata Atlântica, para extrair pau-brasil. Depois fomos devastando outros biomas. E continuamos a fazê-lo, para a estupefação dos civilizados. Quanto à tutela ambiental, somos inferiores aos primatas.

Nossa República sempre tropeçou em escorregões que atropelaram a democracia. A educação de qualidade nunca existiu. Quando começava, mudava a gestão e se cuidava de reinventar a roda.

Ainda assim, há motivos para se reinventar. A reinvenção vai desde a estrutura do Estado, que não é senão instrumento de coordenação da vida em sociedade e merece cobrança, fiscalização e controle, não homenagens. O servilismo imperial acampou nas elites brasileiras e se tornou seu DNA.

Reinventar a democracia, que precisa ser participativa e não mais representativa, pois ninguém se sente realmente representado.

A educação tem de ser compartilhada pela família e pela sociedade, pois é muito séria para deixar exclusivamente com o Estado. E contar com a ciência e erudição internacional, para que a filosofia ESG não seja outro marketing ou peça retórica, mas transforme, efetivamente, esta nação que o constituinte pretendeu chegasse a constituir, um dia, em pátria justa, fraterna e solidária. Quando o capital se convence de uma causa, esta tem tudo para prosperar. Vamos nos agarrar nessa perspectiva, tímida luz que desponta no horizonte.

Com esse propósito, as mentes lúcidas devem se congregar e encetar esforços para a missão de ressuscitar um ânimo que, por miríade de motivos, já pereceu.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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