Vamos deixar de lado a neofobia?

Vamos deixar de lado a neofobia?

Ademir Piccoli*

17 de agosto de 2021 | 07h50

Ademir Piccoli. FOTO: DIVULGAÇÃO

Novidades podem assustar. Isso é fato inconteste. Nem sempre estamos preparados para alterações profundas, deixar nossa zona de conforto e experimentar coisas diferentes. Mas isso não pode nos imobilizar diante das transformações. Caso contrário, estaremos sujeitos a repetir o mesmo de sempre, perdendo a chance de evoluir.

Exemplo bem cristalino disso todos vivemos com a pandemia. De uma hora para outra, fomos obrigados a mudar radicalmente nossas formas de trabalhar, de nos relacionarmos, de encarar o dia a dia. Avanços que antes vinham gradualmente logo se tornaram cotidianos. Mas o tempo passou e muitas dessas mudanças se provaram eficazes — e, agora, deverão ser permanentes.

É o caso do ecossistema de Justiça. Vimos audiências e conciliações passarem a ser feitas de maneira virtual. O que antes era objeto de testes ou de poucas comarcas virou regra. Servidores e magistrados viram seus lares tornarem-se lugar de ofício. Uma mudança tão eficiente que o Tribunal de Justiça de São Paulo, o maior do país, adotará como definitiva após a pandemia. Dinâmicas semelhantes ocorreram na comunicação com as partes e outros ditames da rotina judicial.

Não poderia haver melhor momento para a Justiça embarcar de vez no universo digital. Ainda visto como lento e distante do cidadão, nossos tribunais acumulam cerca de 78 milhões de processos — número bem superior ao da Índia, que tem 30 milhões de ações num universo de 1,3 bilhão de habitantes. Aqui, somos apenas 210 milhões.

A tecnologia certamente não solucionará todas as necessidades mas, sem dúvida, trará outro paradigma para esse ambiente. Soluções como big data, blockchain e inteligência artificial já estão sendo incorporadas e oferecendo grandes contribuições ao sistema, da organização do trabalho ao apoio no processo decisório, bem como no atendimento ao cidadão. Este, especialmente, deve contar com uma Justiça mais digital, intuitiva e transparente, recebendo as informações de que precisa ao menor número de cliques possível.

A saúde, a educação, as comunicações e muitos governos estão cada vez mais interativos e tecnológicos. É hora de os tribunais também se ressignificarem digitalmente, aderindo às múltiplas possibilidades que as inovações nos trazem. Um esforço que deve ser construído com toda a sociedade, discutindo os modelos adequados para essas transformações, passando pela capacitação de recursos humanos e fomento contínuo de novas ideias. Tudo com absoluta segurança.

Deixemos de lado a neofobia. Essas mudanças serão mais do que bem-vindas ao nosso ecossistema de Justiça: darão um novo sopro de evolução para nosso país, cumprindo sua função maior de contribuir com a democracia, a liberdade e a garantia dos direitos. O Brasil e os brasileiros só têm a ganhar.

*Ademir Piccoli, advogado, ativista de inovação e CEO do Judiciário Exponencial

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