Valeixo diz a todos os chefes da PF que ‘está cansado’

Valeixo diz a todos os chefes da PF que ‘está cansado’

Em reunião por videoconferência na manhã desta quinta, 23, delegado Maurício Leite Valeixo, diretor geral da Polícia Federal, comunica aos 27 superintendentes regionais e aos diretores de áreas estratégicas da corporação que no início do ano conversou com ministro da Justiça e Segurança Pública sobre seu desejo de sair após um 2019 exaustivo;

Fausto Macedo e Pepita Ortega

23 de abril de 2020 | 14h16

Atualizada às 16h30*

Mauricio Leite Valeixo. Foto: Denis Ferreira Netto/Estadão

O delegado Maurício Leite Valeixo, diretor geral da Polícia Federal, comunicou nesta quinta-feira, 23, a todos os superintendente regionais da corporação nos Estados, que está cansado e que no início do ano conversou com o ministro Sérgio Moro (Justiça e Segurança Pública) sobre seu desejo de sair do comando. Ele disse a seus pares que o motivo de sua saída não tem relação com qualquer inquérito que eventualmente possa incomodar o presidente Jair Bolsonaro.

Na conversa com Moro, Valeixo, amigo do ministro, demonstrou exaustão, reportando-se a um 2019 tenso na direção da corporação.

Nesta quinta, 23, Valeixo reuniu-se com os 27 superintendentes regionais nos Estados por videoconferência. Também participaram os delegados federais que ocupam diretorias estratégicas da PF.

Sérgio Moro. Foto: Pedro França/Agência Senado

Interlocutores de Valeixo dizem que a tentativa de substituí-lo ocorre desde o início do ano, mas que não teria relação com o que aconteceu no ano passado, quando Bolsonaro tentou pela primeira vez trocá-lo por outro nome. Na ocasião, o presidente teve que recuar diante da repercussão negativa que a interferência no órgão de investigação poderia gerar.

Na videoconferência desta quinta, 23, Valeixo descartou com veemência que sua saída é movida por pressões políticas. Ele afastou rumores de que sua disposição em dar adeus à cadeira número 1 estaria relacionada à uma reação de aliados de Bolsonaro por causa de investigações que incomodam o Planalto.

O presidente Jair Bolsonaro responde perguntas da imprensa na porta do Palácio do Alvorada. Foto: Dida Sampaio / Estadão

Como Valeixo já havia tratado de sua saída do cargo de diretor-geral da PF, Moro tentava encontrar um nome de sua confiança para o posto. Bolsonaro, no entanto, avisou que ele mesmo escolheria um substituto. É a segunda vez que o presidente ameaça trocar a cúpula do órgão.

O ministro da Justiça avisou ao presidente que deixará o governo caso o presidente imponha um novo nome para o comando da Polícia Federal. O Estado apurou que o ministro não aceita que essa troca venha de “cima para baixo”, e defende o direito de fazer a escolha.

‘2019 tenso’

A primeira crise envolvendo a PF, Valeixo, Moro e Bolsonaro teve início em agosto de 2019, quando o presidente antecipou a saída do delegado Ricardo Saadi da superintendência da PF no Rio, justificando que seria uma mudança por ‘produtividade’ e que haveria ‘problemas na superintendência’.

A informação foi rebatida pela PF que, em nota, afirmou que a saída de Saadi não tinha relação com desempenho e indicou que novo superintendente do Rio seria Carlos Henrique Oliveira Sousa. Como revelou o Estado, o nome de Sousa foi incluído na nota propositadamente para evitar uma indicação política da parte do presidente.

No dia seguinte, em resposta à nota da PF, Bolsonaro afirmou que ‘ficou sabendo’ que quem assumirá a chefia da PF fluminense seria o chefe da corporação no Amazonas, Alexandre Silva Saraiva, amigo dos filhos do presidente. Em nova entrevista, horas depois, baixou o tom. “Eu sugeri o de Manaus. Se vier o de Pernambuco não tem problema, não”, afirmou.

Na semana seguinte, o presidente ainda ameaçou demitir Maurício Valeixo como forma de demonstrar que é ele quem manda na corporação e não o então ministro da Justiça, Sérgio Moro.

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