Vale a pena planejar?

Vale a pena planejar?

José Renato Nalini* 

18 de junho de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: ALEX SILVA/ESTADÃO

Planejamento passou a ser permanente preocupação dos governos, por volta da metade do século passado. Tornou-se obrigatório para a gestão estatal e recomendável para a iniciativa privada. Mas não é fácil planejar. Trabalhar com o futuro, dimensão temporal instável e sujeita a transformações.

A sabedoria popular repete que “o homem planeja e Deus sorri”. O que significa a impossibilidade material de antever o que sucederá amanhã. Os economistas são peritos em anunciar perspectivas que não se concretizam e a vaticinar ocorrências que permanecem no plano da imaginação.

Os americanos têm o hábito de elaborar as megatendências para uma década. Nos últimos tempos, têm sido atropelados pelo inesperado. A futurologia, cada vez mais, é uma arte aleatória.

Uma interessante previsão do futuro foi feita na década de 1950 pelo economista francês Pierre Massé. Sua fórmula era: “A planificação visa obter pelo debate democrático uma imagem do futuro suficientemente otimista para ser desejável e suficientemente verossímil para desencadear as ações que resultarão na sua própria realização”.

Ela serviu para que os franceses idealizassem um Mundo Novo, liberado de violência e inibidor de qualquer outro desentendimento entre as nações, de gravidade tal, que pudesse deflagrar um terceiro conflito mundial. O sofrimento causado pela Segunda grande guerra ainda não cicatrizara. Mas o tempo é inexorável e o esquecimento um fenômeno saudável, para extrair da mente episódios trágicos, com os quais seria difícil conviver por longo período.

Vem daí que a situação planetária se tornou muito complicada neste século 21. São inúmeros os questionamentos postos a humanidade e ainda sem resposta. O ideal democrático tornou-se frágil, a economia mostrou-se uma ciência cruel, que exclui a maior parte dos humanos de seus benefícios, há tensões ameaçando a paz e o mais instigante desafio: o aquecimento global.

Diante disso, o horizonte oferece uma previsão catastrófica sobre o futuro da humanidade. Impõe-se a adoção de um projeto negativo, para evidenciar aquilo que não queremos para nós. A fórmula do economista francês só poderia ser: “Obter pela futurologia científica e pela meditação sobre os fins do homem uma imagem de futuro suficientemente catastrófica para ser repulsiva e suficientemente verossímil para desencadear as ações que impedirão sua realização”.

A filosofia não concorda com essa posição, que considera evidentemente autocontraditória. Pois ao conseguir evitar o futuro indesejável, a humanidade comprovaria que, na verdade, ele não era futuro.

Não há como deixar de viver o paradoxo. Os sinais emitidos pela Terra são eloquentes. Ela foi ferida de maneira tal, que a previsão trágica deverá se concretizar mais rapidamente do que se pensava. Tais sintomas indicam a ultrapassagem do ponto após o qual é impossível retornar. O sonho possível é acreditar que o efeito dissuasivo da catástrofe tem de funcionar perfeitamente, para que o futuro seja aniquilado. Ou, pelo menos, que a tragédia venha mais tarde, já que inevitável.

Tudo ainda é mais complexo e difícil no Brasil, a República do permanente dissenso. Não existe consenso a respeito da proteção à natureza, muito ao contrário. Investe-se pesadamente contra ela. Nada obstante os brasileiros, por sua própria conta e risco, tenham mergulhado na realidade digital e manuseiem mais de 300 milhões de mobiles, não se chega a um acordo sobre a implementação do 5G. Parecem ignorar as notícias de que o atraso castigará as nações que não tratarem com celeridade esse assunto.

Não há unanimidade quanto à política e ela também não ajuda no processo de legitima defesa própria, do qual precisa para a sua reabilitação. Persistem controvérsias quanto à condução da economia, não se define se a opção se dará pelo estado mínimo ou pelo pela estatização crescente e é muito apropriada a metáfora da “nau sem rumo”. Quando não se sabe para onde se vai, de nada adianta vento a favor.

Consola pensar como Hölderlin, para quem a ameaça indica o caminho da salvação, pois “lá onde cresce o perigo cresce também o que salva”. Ideias que podem ajudar a refletir e que são encontradas com profundidade no livro “o tempo das catástrofes: quando O Impossível é uma certeza, de Jean-Pierre Dupuy. Enquanto isso, vamos planejando!

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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