Valdir Raupp foi desmentido em quebra de sigilo, aponta denúncia

Valdir Raupp foi desmentido em quebra de sigilo, aponta denúncia

Senador do PMDB negou ter relacionamento com o operador de propinas Fernando Baiano, mas dados apontam telefonemas e indicam encontro em hotel no Rio

Julia Affonso, Ricardo Brandt e Fausto Macedo

26 de setembro de 2016 | 05h45

Valdir Raupp foi citado na Lava Jato. Foto: André Dusek/Estadão

Valdir Raupp foi denunciado na Lava Jato. Foto: André Dusek/Estadão

A denúncia criminal do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, contra Valdir Raupp (PMDB-RO) aponta que o senador foi desmentido por quebra de sigilo. O peemedebista foi acusado de corrupção e lavagem de dinheiro em denúncia formal de Janot protocolada no Supremo Tribunal Federal na sexta-feira, 16.

Raupp é próximo do presidente Michel Temer e já ocupou a presidência do PMDB. Hoje, é tesoureiro adjunto do partido.

Documento

O Ministério Público Federal acusa Raupp de ter recebido propina de R$ 500 mil supostamente desviados de contratos da Petrobrás.

Janot anota na denúncia que Raupp, durante a fase de investigações, ‘negou peremptoriamente’ à Polícia Federal qualquer relacionamento ‘ou mesmo a existência de contatos’ com o operador de propinas ligado ao PMDB Fernando Falcão Soares, o Fernando Baiano, um dos delatores da Lava Jato. O senador peemedebista alegou que foi apresentado ao lobista uma vez, ‘nos corredores do Senado’, ‘tendo apenas tido esse único contato com ele’.

“A versão veiculada por Valdir Raupp de Matos, na tentativa de se desvincular de Fernando Antônio Falcão Soares, restou desmentida pelos dados obtidos com medidas de afastamento de sigilo decretadas pelo Supremo Tribunal Federal, que confirmaram o quanto narrado pelo colaborador (Baiano) e demonstraram a veracidade de suas declarações, em especial o relacionamento com o parlamentar e seus assessores mais próximos, comprovando, além de frequentes contatos telefônicos, um encontro entre Valdir Raupp de Matos e Fernando Antônio Falcão Soares, no Rio de Janeiro, realizado para tratar da contratação de uma empresa pela Petrobrás, exatamente como detalhado pelo colaborador”, registra a denúncia.

De acordo com a acusação, os registros telefônicos de Raupp e Baiano revelam a existência de ‘numerosos’ contatos telefônicos de terminais vinculados ao operador de propinas com os telefones do gabinete do peemedebista e os celulares de seus assessores parlamentares. A denúncia aponta ainda um encontro entre os dois no Hotel Pestana, no Rio.

“Também revelam que, no dia 13 de setembro de 2012, assim que chegou para hospedar-se no Hotel Pestana no Rio de Janeiro (o registro ocorreu por volta das 21:27), Valdir Raupp de Matos ligou, de seu celular, para Fernando Antônio Falcão Soares (ligação realizada às 21:26). As ERBs dos celulares de Fernando Antônio Falcão Soares revelam ainda que, minutos depois dessa ligação, o lobista encontrava-se na área de cobertura daquele estabelecimento (a qual não costumava frequentar), onde permaneceu pelo menos entre 21:37 e 22:18”, relata a acusação.

Segundo informações enviadas pelo Hotel Pestana à Lava Jato, Valdir Raupp fez pagamentos no lobby bar onde Baiano alegou ter encontrado o parlamentar – às 22:36 daquele dia.

Também foram denunciados o cunhado de Raupp, Paulo Roberto Rocha, e uma ex-funcionária do senador, Maria Cleia de Oliveira. Segundo informações das delações premiadas do ex-diretor da estatal Paulo Roberto Costa e do doleiro Alberto Youssef, o dinheiro chegou aos cofres da campanha do peemedebista por meio de uma doação legal feita pela construtora Queiroz Galvão e pela Vital Engenharia.

O Ministério Público Federal aponta também que, em depoimento à PF, Raupp ‘procurou desqualificar as declarações de Alberto Youssef’ – doleiro da lava jato que também fez delaçao.
Segundo a Procuradoria-Geral da República, o peemedebista disse à Federal que ‘com certeza, que duvida que Maria Cléia tenha estado no escritório dele (Youssef)’.

“Novamente, a versão do parlamentar restou desmentida pelos registros de ligações telefônicas dos envolvidos, obtidos mediante autorização do Supremo Tribunal Federal, que
confirmaram as declarações do colaborador.

“O afastamento do sigilo de dados telefônicos de Maria Cléia Santos de Oliveira revelou que a denunciada se deslocou de Brasília para São Paulo em 13 de agosto de 2010, retornando para a capital federal no mesmo dia. Logo após chegar a São Paulo, Maria Cléia Santos de Oliveira, por meio de seu celular, fez duas chamadas, às 13:46:20 e às 14:41 :42, para um terminal de São Paulo, habilitado em nome de Cícera Rosangela da Silva. Conforme apurado, inclusive com o afastamento do sigilo subjacente, tal terminal era, na verdade, utilizado por Alberto Youssef.”

A Procuradoria-Geral destaca ainda que, no dia do encontro entre o doleiro e a assessora de Raupp, ‘a denunciada manteve diversos contatos com Valdir Raupp de Mattos, o que demonstra que o parlamentar comandava e controlava pari passu as ações de sua assessora’.

Em audiência na PF, Maria Cléia e Pedro Roberto Rocha ficaram em silêncio.

COM A PALAVRA, VALDIR RAUPP

A reportagem mandou fez contato com o advogado do senador por meio de mensagem na tarde deste domingo, 25. O espaço está aberto.

Quando foi denunciado pelo Ministério Público Federal, em 16 de setembro, Valdir Raupp se manifestou desta forma.

Em nota, Raupp disse que a “denúncia oferecida pelo Ministério Público, lamentavelmente, tem equivocada interpretação dos fatos”.

Ele também afirmou que “jamais compactuou com qualquer ilícito” e que a doação recebida durante a campanha foi feita de maneira legal, via o diretório estadual do PMDB de Rondônia.

O senador disse ainda confiar na Justiça e diz que aguarda “serenamente a instrução do processo, certo de que a fragilidade das provas e dos argumentos apresentados conduzirão à sua absolvição”.

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