Vade retro, obscurantismo!

Vade retro, obscurantismo!

José Renato Nalini*

11 de novembro de 2020 | 11h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

O Brasil tem justificados motivos para se orgulhar da operacionalidade que conseguiu imprimir à sua democracia. Se existe uma Justiça que efetivamente funciona é a Justiça Eleitoral. Podemos reclamar da qualidade da política partidária, que afugenta pessoas de bem e congrega o que de mais bizarro a humanidade produz. Com as raríssimas e cada vez mais excepcionais participações de vocacionados, idealistas, ingênuos ou incautos.

Aprimorar o convívio entre os humanos é missão infindável. Há de se perseguir a meta de tornar a sociedade um conjunto civilizado, aparentemente uma utopia. Nem por isso se despreze a eficiência do Judiciário que tomou a si a organização e controla a máquina de funcionamento de aferição da vontade popular.

Nossas eleições têm resultados praticamente imediatos. A tecnologia permite contagem instantânea dos sufrágios. O caminho agora é continuar os investimentos em inteligência e adoção de tecnologias cada vez mais confiáveis e seguras, para que a expressão do eleitor se efetue também pela internet. Isso permitirá mais fiel constatação daquilo que a soberania popular, ou o que restou dela no século 21, chegue ao destino sem a dispendiosa, superada e inaceitável logística ainda hoje preservada.

Não é difícil calcular o que se investe em eleições convencionais, aquelas que exigem a presença física do eleitor junto às seções eleitorais. Centenas de milhares de edifícios, públicos e particulares, são requisitados. Oneram o funcionalismo e o trabalhador da CLT, obrigados a liberar espaços, acumulando móveis e equipamentos em outros, vedados ao acesso do eleitorado.

Essas pessoas têm duplo trabalho: arranjar os espaços e depois faze-los retornar à vocação rotineira. Aos poucos, tornam-se inimigos da democracia. Esta exige esforço e trabalho escravo, sem devolver o que se perdeu nessa tarefa desnecessária.

A Justiça Eleitoral tem de providenciar a remoção das urnas, sua entrega em todos os lugares escolhidos, depois a recolha terminado o pleito. Também é responsável pela alimentação dos recrutados para o serviço num domingo, a sacrificar a vida familiar e a única oportunidade semanal de descanso.

Estas eleições de 2020 já deveriam ter se utilizado da vantagem brasileira em relação a outras nações, até mesmo as consideradas padrões civilizatórios. Aqui as eleições informatizadas já funcionam e já se comprovaram exitosas.

Com a pandemia, o uso dos mais de 265 milhões de mobiles deveria ter servido para colher a opinião de um eleitorado que tem todas as razões para estar desalentado com o rumo do Estado brasileiro. A acumular retrocessos em todas as áreas: a mais emblemática é a esfera ambiental. O Brasil que já foi paradigma na defesa da natureza, mostrou-se inclemente e burro. Destrói sua biodiversidade antes mesmo de conhecê-la.

Os brasileiros já têm desenvoltura no manejo de seus smartphones, tablets, laptops, notebooks, computadores pessoais. É preciso dar esse passo adiante, já que as tecnologias nos permitem fazer operações financeiras ilimitadas, com toda a segurança, assinar digitalmente, contratar. Por que não usá-las também para eleger os representantes?

Não se pode raciocinar à luz das teorias conspiratórias: haverá utilização espúria e os resultados poderão ser falseados. A educação é que precisa ser levada a sério, para que as pessoas não sejam alvo fácil de qualquer atitude inescrupulosa. Ou os defeitos que se temem na eleição digital estão completamente ausentes na eleição tradicional?

Inviável é que se acene com a possibilidade de evidente retrocesso, para adoção de voto em papel. Chega de atrasos e de obscurantismo. Há de se impor limites à ignorância e ao fundamentalismo.

A “Justiça que funciona”, hoje confiada ao neoconstitucionalista Luis Roberto Barroso, jurista pioneiro em suas opções, encontrará fórmulas para a realização das eleições de 2022 inteiramente afinadas com os recursos tecnológicos já disponíveis. A possibilidade de alguém se manifestar, de qualquer lugar em que esteja, conferirá maior legitimidade ao pleito. O dinheiro que se economizará servirá para adoção de todas as salvaguardas tecnológicas, para que não paire dúvida alguma sobre a lisura de um procedimento de que o Brasil terá condições de se orgulhar. E ainda mostrar para os norte-americanos que o século 21 está inteiramente imerso na Quarta Revolução Industrial, sem possibilidade alguma de retorno.

Não se pode perder essa chance, já desperdiçada neste ano em que as aglomerações poderão mostrar que a peste continua à solta e ansiosa por conquistar novas vítimas, antecipando a segunda onda, antes prevista apenas para fevereiro ou março de 2021.

Eleições inteiramente digitais em 2022 e daí por diante. Vade retro obscurantismo!

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020

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