Vacinação: do primeiro ao último

Vacinação: do primeiro ao último

Ricardo Breier*

18 de janeiro de 2021 | 13h55

Ricardo Breier. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Diante das situações negacionistas sobre a prevenção e o tratamento científico da COVID-19, estamos presenciando instabilidade política e emocional na sociedade. Isso acontece quando há sustentáculo em atitudes e discursos sem base científica, mas com um rol amplo de crendices, mentiras e cortinas de fumaça. É isso que temos presenciado há algum tempo no Brasil, mas um novo sentimento se fortaleceu desde o anúncio da eficácia da vacina contra a COVID-19.

Primeiramente, há de se falar novamente sobre o caráter inédito da situação atual. Por mais que tenhamos presenciado, na história contemporânea, outros vírus, como o H1N1, a gripe aviária e a espanhola, o contexto que abrange a COVID-19 é único e sem precedentes. O que nos traz a um patamar de ansiedade e receio nunca antes presenciados. Tais sentimentos podem prejudicar o racionalismo que devemos colocar em perspectiva. Vejamos:

O Brasil tem mais de 36 mil salas de vacinação espalhadas por todo o País. Por ano, são mais de 300 milhões de imunobiológicos aplicados. Tais números colocam o País como um dos que mais oferecem vacinas pela rede pública de saúde. E o processo de produção é referência internacional, de acordo com a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas). Por mais que tenhamos falhado com tantas outras posições diante da pandemia, como, por exemplo, com a educação, já que não tínhamos respaldo infraestrutural para atender a demanda, não podemos cometer o mesmo erro com a vacinação.

Para isso, precisamos equacionar liberdade individual, saúde coletiva e negacionismo. O Brasil se encontra sem preparo e enfrenta, de maneira estática, questões de grande comoção social. Infelizmente, ainda adotamos o caminho da política partidária em vez da boa e legítima política de Estado, referenciada por Rousseau. É essa mesma política que desconsidera uma pandemia que já tirou mais de 200 mil vidas no país. Isso não poderia ser motivo de estratégia política eleitoreira.

Assim, os discursos confundem a bandeira da liberdade individual com a falta de consideração com o bem-estar do próximo. Afinal, emitir uma opinião contrária à ciência é se omitir em relação à vida, pois é de responsabilidade do indivíduo a manutenção de sua saúde, para a proteção coletiva. Portanto, nosso papel agora é o de estimular a vacinação, usando dados consistentes, científicos, e de fácil entendimento pela população. Assim, vamos tornar a população mais resiliente contra declarações negacionistas e vamos ampliar o alcance da vacinação.

Nesse sentido, mesmo que a vacinação já tenha dado os primeiros passos, é no final da fila que devemos mirar. A primeira pessoa a receber a vacina já sabemos quem foi, mas a vitória só poderá ser declarada quando o último de nós receber o imunizante. Para isso, o esforço da administração pública deve se somar à experiência brasileira em seu histórico com campanhas de vacinação. Organizados e com o foco em dias melhores, vamos nos vacinar um por um.

*Ricardo Breier, advogado e presidente da OAB/RS

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