Vacina sem patentes e sem fins lucrativos: um orgulho para a ciência e uma esperança para a humanidade

Vacina sem patentes e sem fins lucrativos: um orgulho para a ciência e uma esperança para a humanidade

Soraya Smaili*

07 de janeiro de 2022 | 06h00

Soraya Smaili. FOTO: DIVULGAÇÃO

Nos últimos dias tivemos uma notícia importante que representa uma novidade para o momento que vivemos. Mais uma vacina para combater o Covid-19 está chegando, pela primeira vez sem patente e que será produzida sem visar lucro. Foi desenvolvida a partir de estudos de dois pesquisadores, o Dr. Peter J. Hotez, do Centro para o Desenvolvimento de Vacinas do Texas Children`s Hospital, e da Dra Maria Elena Bottazzi, da Baylor Escola de Medicina, que abriram mão de obtiverem vantagens financeiras com o licenciamento da vacina. Além de ter apresentado bons resultados de segurança a COBERVAX os estudos de fase 3 mostraram mais de 80% de eficácia na proteção contra a doença e os autores indicam que em breve teremos os dados publicados. No centro dos acordos que estão sendo firmados, haverá uma produção de baixo custo e em larga escala.

A COBERVAX, como foi chamada, tem como base uma tecnologia conhecida há décadas e já utilizada em outras vacinas e por vários países, a exemplo da vacina da Hepatite B, a partir da produção de proteína recombinante, a proteína Spike (S). Como sabemos, a proteína S do Sars-Cov-2 é a principal responsável pela infecção e pela transmissão do vírus. A nova vacina será licenciada para a empresa Biological E. Limited (BioE), que poderá produzi-la sem registro de patente e com conhecimento aberto. Será a primeira vacina produzida em larga escala com a finalidade de dar a oportunidade de vacinação em massa aos países de menor renda per capita e que não tem poder econômico para acessar as “vacinas de mercado”. A COBERVAX se demonstrou segura e, por ter uma tecnologia conhecida e utilizada por outras vacinas, facilitará produções locais, sendo que contratos de licenciamento já estão em andamento para a produção na Ásia e África.

Há pouco mais de um ano e até recentemente, vínhamos discutindo a importância da flexibilização das patentes das vacinas para covid-19, especialmente devido à situação da pandemia, para tornar a vacina acessível e trazer a saúde de maneira equitativa. Porém, apesar da posição de mais de 100 países da OMC e da própria OMS em declarar a vacina para o Covid-19 como um bem público, a flexibilização não aconteceu. A chegada da COBERVAX sem patentes, com tecnologia acessível às diferentes regiões do planeta e baixo custo é um exemplo que deve ser seguido e celebrado. Mostra o que a ciência pode fazer pela saúde, de maneira acessível, equitativa e atravessando fronteiras. A  COBERVAX resgata os valores mais elevados da ciência  a serviço da humanidade e não das grandes corporações.

https://www.scientificamerican.com/article/a-covid-vaccine-for-all/

*Soraya Smaili, farmacologista e professora da Escola Paulista de Medicina; ex-reitora da Unifesp e coordenadora do SoU_Ciência

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