Vacina e política

Vacina e política

Edson Miranda*

17 de dezembro de 2020 | 04h00

Edson Miranda. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

A imunização sempre foi considerada uma questão de política pública de saúde. Contudo, agora, a imunização tornou-se uma questão puramente política.

O cenário atual chega a ser bizarro. A COVID 19 grassa novamente pelo mundo e sua segunda onda deve chegar logo ao nosso país, como afirmam alguns especialistas. E não será uma “marolinha” como dizia nosso ex-presidente, cuja alcunha deveria lhe dar a certeza de ser um especialista nos mistérios do mar.

O governo federal continua errático na condução do combate a COVID 19 e não apresenta sinais de que está se preparando para uma estratégia segura à imunização em massa da população brasileira. Postergou o início da vacinação para março ou abril do ano vindouro e pelo jeito não está preparado para essa grande empreitada. Recentemente foi veiculada a notícia de que os fabricantes de seringas hipodérmicas não receberam encomendas do Ministério da Saúde. Isto é sinal claro que, mais uma vez, tudo será resolvido no afogadilho.

A vacina é, na verdade, a solução dos problemas econômicos, sociais e sanitários existentes decorrentes da pandemia, que afligem a população brasileira.

O Reino Unido já deu partida à imunização e o mesmo fez a Rússia, porém os súditos da rainha estarão mais seguros do que os russos. Sempre é bom lembrar que a Sputnik 5 não cumpriu todos os protocolos internacionais de aprovação como seus demais concorrentes.

Por aqui, na terra dos bandeirantes, o governador já está avisando, a quem possa interessar, que irá promover a imunização dos brasileiros do Estado de São Paulo em janeiro. Afinal, São Paulo tem recursos financeiros e tecnológicos para tanto, bem como infraestrutura para uma medida de tamanha envergadura.

O Estado de São Paulo já está recebendo os primeiros lotes da vacina e o Instituto Butantan está adquirindo os insumos para iniciar a produção do imunizante. A produção atenderá a população paulista, a de outros estados da federação e até de outros países como Argentina, Bolívia e Peru.

Se o governador paulista iniciar a imunização em janeiro como promete, conseguirá, com certeza, a projeção nacional que precisa para alavancar sua candidatura ao Planalto em 2022.

Para a estratégia dar certo, como diria o grande craque Garrincha, será necessário “combinar com os russos”. Não os verdadeiros russos comandados por Putim, mas os russos em seu sentido figurado, ou seja, a toda poderosa ANVISA.

A ANVISA será isenta, como deveria ser, ao ponto de não se deixar influenciar politicamente para sua decisão? Para sabermos, só o tempo nos dirá.

Certamente, em caso negativo, o Governo de São Paulo buscará as barras dos tribunais, para obter a autorização que, eventualmente, a ANVISA não lhe conceda.

Ora, as chances de obter a autorização, “por bem ou por mal”, são grandes. A CORONAVAC é uma vacina desenvolvida pela China em seus melhores laboratórios, cumprindo todos os protocolos internacionais exigidos e parte de seus testes foram realizados no Brasil por intermédio do Instituto Butantan, entidade de renome nacional e internacional. Aliás, a maior fornecedora de imunizantes do Ministério da Saúde.

O governador paulista cometeu alguns deslizes, principalmente aquele em que afirmava que os paulistas teriam a vacina contra o COVID 19, logo corrigido. Agora, a vacina é para os brasileiros do Estado de São Paulo.

Inclusive, os políticos brincam que o governador vai ter que conceder o “green card” paulista para os brasileiros não paulistas durante a vacinação.

Brincadeiras à parte, o assunto é sério e envolve vidas, que podem ser poupadas se prevalecer o bom senso.

No passado, a população brasileira se revoltou contra a imunização obrigatória contra a varíola. Agora essa mesma população clama pela vacinação contra a COVID 19 e parece que as autoridades federais fazem ouvidos moucos.

Se o nosso mandatário máximo não tivesse adotado a posição negacionista quanto à gravidade da pandemia, expressando sua contrariedade quanto a CORONAVAC, provavelmente poderia estar colhendo os louros agora, afirmando que o Governo Federal daria todo o apoio à imunização em terras paulistas. Se assim agisse, tiraria facilmente o governador bandeirante do foco. Mas ao contrário, o nosso presidente está pavimentando o caminho para que seu oponente chegue a Brasília, como aquele que salvou a população brasileira do COVID 19.

*Edson Miranda, advogado, professor universitário e escritor

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