Usos da corrupção

Usos da corrupção

Luiz Alberto Grijó*

03 de setembro de 2021 | 05h00

Luiz Alberto Grijó. FOTO: INAC/DIVULGAÇÃO

Corrupção é bem mais do que um conjunto de crimes capitulados em códigos legais.  Especialmente em política, costumes e certas religiões, a corrupção é, antes de tudo, uma ideia-força, seguindo a noção esboçada pelo sociólogo Pierre Bourdieu[1], constantemente bradada aos quatro ventos como um vigoroso anátema. Em O Nome da Rosa, romance de Umberto Eco, a personagem Salvatore, um monge com herético passado dolciniano e mentalmente perturbado por ter sido vítima de terríveis torturas físicas em nome de Deus, costumava vociferar pelos pátios da abadia o signo de reconhecimento dos membros da seita excomungada: penitenziagite. A exortação era, ao mesmo tempo, uma convocação à vida mendicante e uma advertência às almas corrompidas em luxos, opulências e excessos de que o arrependimento e a contrição se impunham, sob pena de danação eterna.

A corrupção, portanto, ao invés de se limitar a ser objeto de investigações policiais, controles institucionais e persecuções judiciais, é um significante saturado de sentido capaz de significar muitas e variadas coisas, mas todas muito próprias para o uso que tem sido dele feito enquanto arma de combate. Escrituras sagradas são cheias de exemplos de como a corrupção leva à perdição. A geração subtraída do Egito por Moisés acabou fadada a jamais vislumbrar a terra prometida porque caiu na tentação de adorar um falso ídolo; a mulher do piedoso Ló, cujo nome nem é revelado, virou estátua de sal ao se apegar a um mundo supostamente corrompido.

Como sublinhou Max Weber[2], em política seria mais do que desejável que os vocacionados pudessem temperar a ética dos fins últimos, que remete ao lado profético da ação política que promete, e muitas vezes deseja de fato, mundos melhores, com a ética da responsabilidade, segundo a qual as posições tomadas devem estar sustentadas em cálculos racionais, em fortes sensos de perspectiva, proporção e previsão. E o que vale para a política, vale também para o jornalismo, a docência, os púlpitos, os debates públicos, caso o objetivo seja efetivamente o exercício, a garantia e a reprodução de liberdades democráticas.

A corrupção como anátema, presa à lógica profético-apocalíptica, aponta o dedo em direção ao outro, sendo sempre dele de onde se origina, ameaçadora, pronta a subverter costumes, assaltar cofres públicos, desviar recursos, destruir os modos de viver e existir das “gentes de bem”. É coisa de demônios!

Se a corrupção sempre existe, ao menos desde que um certo casal saboreou a fruta interditada, o grande problema é a corrupção em si, ou o que dela se faz e o que por ela se entende? Se continuasse predominando que certos comportamentos, modos de expressão, hábitos e mesmo vestimentas são signos de corrupção, era possível a uma mãe “trabalhar fora” ou amamentar o filho agitado no acento do metrô? Sócrates foi julgado e sentenciado à pena capital por corromper a juventude dourada de Atenas. Nem sempre o que é tido como corrupção é ruim, e, quando se mistura com moral, religião e muitas vezes com política pode se transformar em um míssil desgovernado capaz de destituir lideranças reputadamente honestas e pôr em seu lugar algum sacripanta qualquer, oriundo das profundezas de mundos subterrâneos.

Ninguém é a favor de corrupção, seja ela de que tipo for, mesmo que isso dependa do ponto de vista do freguês, ou melhor, desde qual lugar o freguês pensa, age, existe. Até mesmo os que fazem dela seu ganha-pão, costumam rejeitar que sejam corrompidos ou corruptores. Não obstante, lidar com corrupção a partir da ética das finalidades últimas, como anátema, pode ser tão pernicioso quanto ela própria, senão mais. Diferentes tipos de estrondosas “caçadas a corruptos” – exemplos históricos não faltam –, ao invés de resultarem em “melhorias do quadro”, reforço das instituições de vigilância e controle, aprimoramento dos mecanismos e agentes comprometidos em manter a ilegalidade e os crimes encurralados ou em declínio, findam por desencadear forças sociais deletérias, tanto no sentido político-social quanto moral, antes contidas ou escondidas. A irresponsabilidade pode pôr em risco as próprias possibilidades civilizacionais, conforme a definição do sociólogo Norbert Elias[3], e de futuro por uma sociedade, senão igualitária, ao menos minimamente justa e efetivamente livre.

Apontar o dedo e gritar é bem mais fácil do que assumir consequências e os profetas, sejam os moralistas, sejam os políticos oportunistas que, frequentemente, estão na mesma pessoa, sabem e se servem muito bem disso. Objetivar o lusco-fusco moral/racional-legal que é a corrupção necessariamente deve passar pela ética da responsabilidade, uma responsabilidade muito estrita, rígida e comprometida. Fora disso, no limite, as liberdades democráticas e a própria sociedade como tal podem ruir, esmagadas sob regimes supostamente impolutos, sem o menor vestígio de corrupção, seja ela qual for, simplesmente porque neles não é permitido duvidar da premissa segundo a qual ela não existe. Aos atrevidos, cicuta. Penitenziagite, ouve-se, ao cruzar a Augusta vindo pela Paulista, em meio a uma agitada multidão.

[1] BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro/Lisboa, Bertrand Brasil/DIFEL, 1989.

[2] WEBER, Max. A política como vocação. In: GERTH, H. H., MILLS, Wright (org.). Max Weber: ensaios de sociologia. Rio de Janeiro, Guanabara, 1982, pp. 97-153.

[3] ELIAS, Norbert. O processo civilizador. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1994.

*Luiz Alberto Grijó, professor de História da UFRGS, doutor em História pela UFF. É autor, entre outros, de A Dança das Bolinhas: Notas Sobre o Brasil Interrompido, livro publicado pela editora Telha em 2020, e A Democracia Sequestrada: Mídia e Poder no Brasil Atual, artigo publicado na revista Anos 90

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