Urbanização planejada

Urbanização planejada

Maury Bastos*

08 de novembro de 2019 | 06h45

Maury Bastos. Foto: CSul Desenvolvimento Urbano/Divulgação

A urbanização das cidades e o crescimento populacional são fenômenos que avançam globalmente, e à olhos vistos, nas últimas décadas. O espalhamento das cidades muitas vezes ocorre de forma desordenada e pautado pela necessidade da população, que busca melhor qualidade de vida nas regiões metropolitanas que envolvem os grandes centros urbanos.

As tendências e projeções são de que as cidades sigam crescendo e o que preocupa é na forma como esse crescimento irá ocorrer. Bons exemplos não faltam dentro e fora do Brasil para inspirar projetos que agreguem tecnologia, mobilidade, sustentabilidade, lazer e segurança à rotina das famílias. Os recentes planos diretores municipais, por exemplo, trabalham para contemplar esses e outros aspectos que possam garantir um futuro mais bem planejado.

Dados recentes, divulgados pelo IBGE, apontam que as pessoas estão gastando mais com transporte do que com alimentação, nos tempos atuais. Um impacto real e palpável na qualidade de vida da população. O crescimento é irremediável, mas a forma como ele irá acontecer pode ser diferente.

Tomo como exemplo a Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), onde vivo e trabalho. A cidade, que foi planejada e fundada em 1897, hoje possui mais de 2,5 milhões de moradores em seu território e no entorno o volume de pessoas é de quase o dobro desse número.

Onde vamos parar? A capital, que foi projetada por Aarão conserva seus ares de “Cidade Jardim”, mas já passou por inúmeras transformações nesses mais de 120 anos de vida. Olhando para o passado e projetando um futuro melhor, o Plano Diretor de Desenvolvimento Integrado da Região Metropolitana de Belo Horizonte (PDDI – RMBH), mira uma mudança na perspectiva social que se formou na capital mineira e seu entorno. A concentração de serviços e oportunidades de trabalho, saúde, educação e lazer em Belo Horizonte gerou um aumento na desigualdade socioespacial, com um espalhamento desordenado que reforça o modelo “centro-periferia”, entre outros pontos negativo.

A Região Metropolitana é composta por 34 municípios e forma o principal centro político, comercial, financeiro, educacional e cultural do estado, com um total de 4,8 milhões de pessoas. Nesse cenário, o Plano Diretor coloca luz sobre aspectos importantes para o desenvolvimento da região, propondo soluções e regras que invertem a atual lógica da cidade, investindo na criação de subcentralidades.

Entre as potenciais regiões mapeadas para a implantação desse novo modelo está o Vetor Sul, que abrange o município de Nova Lima. Assim como aconteceu com o Vetor Norte de Belo Horizonte nos últimos anos, que se tornou uma centralidade viva recebendo investimentos em mobilidade, com a implantação da Linha Verde, instalação da Cidade Administrativa, além de shoppings e universidades. Foram criadas novas oportunidades para quem mora na região e diminuiu-se o fluxo para o Centro. A ideia agora é que a “centralidade Sul” se desenvolva de forma ampla, planejada, moderna e sustentável, atraindo investimentos público-privados e moradores nas próximas décadas.

Foi seguindo o tom desse movimento que, em 2014, a CSul deu início a um Masterplano que contempla o desenvolvimento urbano ordenado e a preservação ambiental na região da Lagoa dos Ingleses, em Nova Lima. O projeto, que foi classificado como prioritário pelo Governo Estadual em 2017, ocupa uma área de 27 milhões de metros quadrados, às margens da BR-040, uma das importantes vias de acesso à Belo Horizonte.

O trabalho nasce justamente dessa necessidade de descentralização da atividade comercial, de moradia e de lazer da região central da capital mineira e foi desenvolvido pelo escritório do premiado arquiteto e urbanista Jaime Lerner. Um projeto alinhado às diretrizes do Plano Diretor e ao conceito do novo urbanismo, que reúne as melhores práticas adotadas no mundo dentro do tema, levando em conta pontos como infraestrutura de habitação, lazer, heterogeneidade social e oportunidades de trabalho, atrelados a sustentabilidade, inovação e mobilidade.

Nesses primeiros anos de implantação, já atraímos empresas de biotecnologia e inovação, transformando a região em um novo cluster do segmento no estado, além de ter firmado parceria com uma Universidade que ofertará cursos dedicados à área de saúde. Foram dados outros passos importantes, contribuindo para melhoria da qualidade de vida e conveniência dos moradores, como a abertura de um shopping, que levou para a região uma grande rede de farmácias e outra de supermercados, que antes ficavam a mais de 15km de distância. O novo centro comercial prevê ainda inauguração das primeiras salas de cinema da região.

Entre os pontos positivos do desenvolvimento urbano ordenado e, principalmente de um trabalho alinhado ao direcionamento público, está a preocupação ambiental. Quando o crescimento é desordenado e/ou não planejado, são desconsiderados importantes impactos futuros que podem ser negativos a médio e longo prazo. No projeto da CSul, o cuidado com o meio ambiente é uma pauta fundamental. A nova centralidade preserva área verde da região, que inclui fragmentos de mata atlântica e nascentes, e prevê 92m² de área verde por habitante, número que em Belo Horizonte é de apenas 18m². Um amplo estudo hidrológico também está sendo realizado, gerando dados que vão permitir à empresa e ao governo um conhecimento profundo da realidade hídrica da região.

Reforçando o tema que deu voz a este artigo, se até pouco tempo o desenvolvimento econômico e social do Vetor Sul da RMBH (e de Nova Lima) ainda estava muito ligado à exploração mineral da região, com o Plano Diretor caminham novas possibilidades para ampliar as oportunidades de futuro de milhares de pessoas. As cidades que queremos para o futuro são completas, modernas, sustentáveis, funcionais e heterogêneas.

 

*Maury Bastos, presidente CSul Desenvolvimento Urbano

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