Uma viagem ao centro de nós: a carta de um ‘terranauta’

Uma viagem ao centro de nós: a carta de um ‘terranauta’

Carlos Walter Dorlass*

20 de junho de 2020 | 04h00

Carlos Walter Dorlass. FOTO: DIVULGAÇÃO

Em março de 2020 nos tornamos “terranautas” – exploradores do local no qual vivemos – e fomos convocados a ir para casa, com destino ao nosso interior e com o objetivo de reaprender a viver em comunidade.

Essa complexa missão já dura cerca de 60 dias e, desta vez, ao contrário daqueles chamados astronautas, que já foram à Lua, não nos preparamos para esse momento.

Hoje, estamos em casa, no planeta Terra, e a nossa missão é lidar com o afastamento social, o confinamento e as incertezas.

Alguns de nós possuem abrigo, alimento e companheiros de jornada, mas, em geral, os “terranautas” também sentem falta dos amigos, amores e de outros familiares.

Neste período de distanciamento, ainda que em casa, cada de um nós precisa administrar uma série de sentimentos e situações:

Precisamos entender as frustrações

Viver em um espaço confinado com outras pessoas exige respeito e tolerância. Como os “terranautas” nem sempre selecionam toda a tripulação, saber cooperar é uma competência importante para um ser humano, com isso, a comunicação é essencial: precisamos entender não só as frustrações do outro, mas também o que nos chateia e o que ajuda a nos tranquilizar.

Compartilhar pode se tornar uma experiência de aproximação

Em tempos difíceis, a tarefa é de ajudar os outros tripulantes. Sabemos que dependemos um do outro para nossas vidas e, neste momento mais do que nunca, o trabalho em equipe é importante.

Ainda temos algum controle

Mesmo com as tarefas distribuídas entre os “terranautas”, relembro que temos controle sobre algumas coisas, como escolher o tipo de comida, o que bebemos e quando desejamos dormir, pois, mesmo ‘presos’ em casa, ninguém está nos dizendo qual livro ler ou a que horas acordar. Existe um grande objetivo em nossa viagem: “aprender a ser mais humanos”. Podemos ter metas e realizar conquistas todos os dias.

Eu tinha planos

Um “terranauta” não precisa estar alarmado ou ansioso com os riscos da “viagem ao seu eu” porque sabemos o que fazer em situações de emergência. Relembro que temos contatos de fácil acesso e devemos distribuir atividades, caso não consigamos realizar algo sozinhos como cozinhar ou descobrir a melhor forma de cuidar de um aquário. A ajuda de um outro “terranauta” pode tornar tudo mais fácil, assim como apoiar o pode ser bem prazeroso.

Planejar algo agradável para o futuro

Com algum tempo de sobra, podemos fazer o que sempre desejamos, mas antes estávamos muito ocupados. Os “terranautas” em missões longas, como a de agora, por exemplo, podem assistir a filmes e ler livros. O “terranauta” pode resolver problemas complexos, ser mais criativo, aprender a conviver e o mais importante: ser mais humano.

Temos tempo para apreciar as coisas

Uma das coisas que “minha equipe” (família) e eu adoramos fazer no final do dia de trabalho é olhar para o horizonte. Vemos as luzes da cidade surgirem e quando entramos no entardecer é mágico! Ainda podemos ver o nascer do sol e as nuvens de um lugar privilegiado e, por vezes, subestimado: a janela.

Outro ponto importante é ver que nossa felicidade não necessita de riquezas e objetos valiosos. De volta à Terra “normal” seremos confrontados novamente pelo materialismo. Certamente rebaixaremos o valor relativo das ‘coisas’ em nossas vidas, um sinal que o impacto causado pela covid-19 terá um efeito significativo sobre cada um.

Eu sou um “terranauta” e acredito que quando a pandemia terminar, o mundo será um lugar melhor para se viver; com menos consumismo e mais benfeitorias ao meio ambiente.

Tenho confiança que sentiremos a mudança na sociedade, que será mais comunitária, mais coerente e muito mais amável.

*Carlos Walter Dorlass, diretor-geral do Colégio Marista Arquidiocesano, em São Paulo (SP)

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