Uma vacina do Brasil

Uma vacina do Brasil

Marco Vinholi*

29 de janeiro de 2021 | 06h25

Marco Vinholi. FOTO: DIVULGAÇÃO

O início da imunização contra a Covid-19 no Brasil só saiu do papel porque o Governo do Estado e o Instituto Butantan aceitaram, há mais de seis meses, o desafio de desenvolver uma vacina que pudesse proteger não apenas a população de São Paulo, mas, sim, a de todo o País.

Mesmo sob uma intensa campanha de sabotagem capitaneada pessoalmente pelo presidente Jair Bolsonaro, o governador João Doria se manteve firme contra todos os ataques e, principalmente, a total desmobilização do Ministério da Saúde em torno da vacina do Butantan até meados de janeiro. Por isso, embora nossa população já esteja sendo vacinada, ainda sofremos os efeitos deletérios da tibieza do Governo Federal face a este tema.

É preciso deixar claro que, não fosse a atuação decisiva e firme do governador em defesa do Butantan e da parceria com a biofarmacêutica Sinovac Life Science, o Brasil teria, hoje, apenas um lote de 2 milhões de doses que a Fiocruz obteve por meio da parceria com a Universidade de Oxford e a empresa AstraZeneca.

Graças à iniciativa encampada por João Doria desde o início, o Butantan já disponibilizou 10,1 milhões de doses da vacina que, tardiamente, o presidente Jair Bolsonaro decidiu incluir no Plano Nacional de Imunizações (PNI). Em setembro passado, a meta do Governo do Estado de São Paulo e do próprio Butantan era, sim, mais ambiciosa. Era possível terminarmos o ano de 2020 com um estoque de 46 milhões de doses do imunizante prontas para uso.

Mas, por incúria, inépcia e motivado por um surto disparatado de inveja, Jair Bolsonaro privou a população do Brasil deste imenso benefício à saúde pública. Em 20 de outubro, o Ministério da Saúde anunciou a aquisição de todo o lote previsto pelo Butantan. Um dia depois, o presidente da República, de forma inexplicável e sem qualquer justificativa plausível, desautorizou a pasta e ordenou a revogação do acordo.

O impasse criado exclusivamente por um capricho infantiloide de Bolsonaro provocou grandes obstáculos. Já não havia qualquer garantia que a vacina do Butantan poderia ser usada, embora 14 Governos Estaduais e mais de mil Prefeituras demonstrassem interesse no imunizante.

Mesmo com o inesperado e insólito recuo do Ministério da Saúde, o Estado de São Paulo seguiu em frente. Concluiu os estudos clínicos que provaram que a CoronaVac era segura e eficaz contra o Coronavírus e submeteu o produto à avaliação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Quando percebeu que a opção única pela vacina da Fiocruz poderia atrasar a imunização no Brasil até março, Bolsonaro finalmente capitulou. Autorizou o Ministério da Saúde a comprar 46 milhões de doses da vacina do Butantan, com entrega escalonada entre janeiro e abril, e possibilidade de mais 54 milhões até o final do ano. Com a aprovação da Anvisa no último dia 17 (domingo), São Paulo não perdeu um minuto sequer e deu início à campanha de vacinação contra a Covid-19 naquela mesma tarde.

Havendo insumos vindos da China, o Butantan pode produzir até um milhão de doses diariamente. Para fevereiro, o diretor do Instituto, Dimas Covas, já confirmou a produção de 8,6 milhões de doses e negocia a chegada de matéria-prima para outro lote de mesma quantidade.

São Paulo vai cumprir o acordado com o Ministério da Saúde e disponibilizar 46 milhões de doses até abril. E se puder acelerar este processo, obviamente irá fazê-lo. São Paulo pode e vai ajudar o Brasil a proteger dezenas de milhões de vidas com a vacina do Butantan. Mais importante que isso é saber que vidas se salvam, não se politizam.

*Marco Vinholi é secretário de Desenvolvimento Regional do Governo do Estado de São Paulo e presidente do Diretório Estadual do PSDB

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