Uma segunda chance contra o desperdício

Uma segunda chance contra o desperdício

Luis Borba*

08 de maio de 2021 | 05h00

Luis Borba. FOTO: DIVULGAÇÃO

O gasto com alimentação tem ocupado um espaço cada vez maior no orçamento das famílias brasileiras. Com altas recentes no valor de itens básicos como arroz, óleo e carne, tem sido difícil ir ao supermercado e voltar para casa com as sacolas cheias. A crise econômica gerada pela pandemia agrava o problema, já que muitas pessoas sofreram redução de renda ao longo dos últimos meses.

Diante desse cenário, parece insensato desperdiçar comida de boa qualidade, pronta para o consumo. E, no entanto, é o que temos feito. Segundo o World Resources Institute (WRI) Brasil, o país descarta 41 mil toneladas de alimentos todos os dias, sendo que mais de 40% desses produtos perdem a validade antes mesmo de chegar às gôndolas dos supermercados. Enquanto falta comida no lar de muitos brasileiros, alimentos são descartados, enviados a aterros sanitários ou incinerados, porque não encontraram um comprador a tempo.

Se quisermos baratear a comida, ampliando o acesso da população mais carente a uma dieta saudável e diversificada, é urgente lidar com o problema do desperdício, a começar por uma mudança de atitude diante de alimentos próximos do prazo de validade. Em vez do descarte, é preciso estimular iniciativas que ofereçam uma “segunda chance” a esses produtos, comercializando-os a preços mais baixos. O mesmo vale para itens que fogem do padrão estético: por incrível que pareça, muitas frutas, verduras e legumes encalham nos supermercados e acabam indo para o lixo simplesmente porque são considerados feios. É uma postura irracional, que só se explica pelo mau hábito que temos de torcer o nariz para certos alimentos.

Felizmente, a tecnologia tem oferecido soluções para lidar com o desperdício. Hoje existem apps e plataformas que conectam as distribuidoras de alimentos com o consumidor final, construindo a logística necessária para que itens próximos do vencimento, ofertados a preços bem mais atrativos, sejam enfim comercializados.

O modelo é vantajoso para todos. Os consumidores têm acesso a alimentos mais baratos. Já as distribuidoras aumentam suas vendas e evitam o descarte desnecessário de produtos que estão em boas condições. Há ainda os ganhos social e ambiental, pois a redução do desperdício contribui para a construção de uma economia mais sustentável, evitando a exploração desnecessária da terra e ampliando o poder de compra da população.

Com o boom do comércio online durante a pandemia, esse tipo de iniciativa ganhou força. Mais pessoas adotaram o hábito de encomendar alimentos pela internet e, com isso, descobriram a opção de economizar comprando produtos próximos do vencimento. Trata-se de um movimento importante para que consigamos eliminar o estigma de “impróprio para o consumo” que ainda paira sobre esse tipo de produto.

Se quisermos reduzir o desperdício de alimentos, é preciso acelerar essa tendência. A segunda chance é uma opção saudável, barata e eficaz para garantir comida no prato de todos os brasileiros.

*Luis Borba é CEO da SuperOpa

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