Uma reflexão sobre a morte

Uma reflexão sobre a morte

Patrícia Yamasaki*

18 de julho de 2020 | 07h00

Patrícia Yamasaki. Foto: Divulgação

Dizem que a incapacidade humana de lidar com o vazio da existência deu origem a ideia de Deus. Vejo esse vazio como a morte e seu efeito máximo: a finitude. Essa é uma perspectiva que revela um pouco do impacto retumbante desse evento, que simplesmente corta a nossa existência, sobre nossas emoções.

Por ser destino certo do nosso ciclo de vida, cada um de nós, desde muito cedo, constrói com ela relações tão particulares quanto diferentes ao longo dos anos, como uma fruta que amadurece, como o vento que passa.

Distância, negação, convivência pacífica, aceitação e até anseio, em diferentes graus. Tudo se passa em um lugar íntimo e quieto dentro de nós. A morte, o medo da morte, a ideia da morte, tudo sobre ela é silencioso. Barulhenta é a vida.

Fato é que a morte, vaidosa com tanto poder, protagoniza as maiores dúvidas existenciais; está intimamente ligada ao surgimento das religiões e tem influência direta na maneira que vivemos.

A morte é simples e complexa, mas sobretudo contraditória. De um lado, a única certeza que temos e, de outro, a grande incerteza dos nossos caminhos. Bem por isso, nossa história poderia ser reescrita se soubéssemos quando tudo termina. É o que muitos dizem se passar ao final da vida, quando podemos ter um olhar retrospectivo.

A morte é, ainda, multifacetada. A morte de outros, próximos, pesadelo. Se nossa, pode até ser desejo. A sociedade construída sobre valores ocidentais, em especial, tem enorme dificuldade em lidar com a perda das pessoas queridas. Em lugares não mais tão distantes, há um outro modo de se ver: impermanência. 

É muito curioso, na verdade, que seja um tema considerado espinhoso. 

A morte realmente fala com o irracional em nós.

Sabemos, até empiricamente, que a beleza das coisas está muito além do tempo que duram. A vida é bela e ninguém, em posse dessa sensação, quer sair daqui. Isso me ocorreu enquanto olhava o céu rosado, ao entardecer.

A morte, objetivamente, é esse limite temporal. Limite que, para uns, tira o sentido da existência e, para outros, lhe dá sentido. O contraste, o novo, o temporário nos desfia muito mais e é repleto de cores.

A morte rende muito mais que algumas palavras limitadas nesse espaço. A propósito disso, um filósofo de quem gosto muito me apresentou uma tirinha do Snoopy em uma palestra. Ela desde então conversou comigo. Sua mensagem, bem apreendida, dispensa anos de terapia. Nela, Charlie Brown diz ao Snoopy: algum dia, todos nós iremos morrer. E Snoopy responde: verdade, mas em todos os outros dias não. Esse tem sido meu farol na escuridão imensa da existência. Pensar em tudo que se pode experimentar hoje e em todos esses outros dias.

*Patricia Yamasaki, advogada.

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