Uma receita infalível

Uma receita infalível

José Renato Nalini*

07 de fevereiro de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: IARA MORSELLI/ESTADÃO

O Brasil precisa de criatividade para enfrentar tantas crises, das quais a do Covid19 não é a pior. A pandemia passará. O que não significa que outras deixarão de vir. Mas a situação desta Nação, que era uma promessa de um novo pacto convivencial e merecia a atenção do mundo, deteriorou-se de forma gravíssima nos últimos anos.

A crise ética desaguou em crise moral e afetou a economia. Não foram feitas as reformas necessárias. O Estado sanguessuga continuou a crescer, assim como o seu apetite fiscal. A indústria sucateou. A educação capenga e anacrônica não percebeu a chegada da Quarta Revolução Industrial. Acelerou-se tudo o que era ruim: desemprego, exclusão, violência, intolerância, desigualdade.

Somente um esforço realmente sobre-humano para devolver a esperança às novas gerações. Elas são compostas por nativos digitais, que não conseguem entender a superada consciência analógica dos sobreviventes. E estes não têm respostas a dar.

Ainda bem que iniciativas autônomas, desvinculadas do governo, mostram a fibra do brasileiro que não desiste, apesar de tudo.

Uma delas é o idealismo de Janaína e Jefferson Rueda. Ambos vencedores na gastronomia. Ela, com o “Bar da Dona Onça”, ele com a “Casa do Porco”, poderiam descansar nos louros obtidos mediante trabalho árduo e sério. Não. Querem partilhar aquilo que aprenderam, ensinando pessoas que vão poder se dedicar a afazeres prazerosos e conseguir sustento digno.

Já havia se mostrado uma experiência louvável a participação de Janaína no projeto “Cozinheiros da Educação”, que treinou as merendeiras para o preparo de pratos nutritivos, saborosos e sedutores, com o material fornecido pela política estatal de alimentação estatal. Foi uma experiência que produziu frutos saudáveis, mas que parece não ter merecido estímulo para continuidade e expansão.

Agora, o casal faz de seu sítio, em São José do Rio Pardo, um laboratório de experimentação para formar novos cozinheiros, hábeis em recuperar receitas tradicionais, próprias à chamada “cozinha caipira” paulista.

A proposta é conciliar agricultura familiar e cozinha de excelência. O mais importante é uma concepção atualíssima, que leva em consideração os ODS – Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, recentemente sintetizados na sigla ESG – Ambiente, Social e Governança, na versão em inglês: Environmental, social and corporate governance. É o que interessa ao presente e ao futuro: procurar sustentabilidade, ideia fundamental para salvar o mundo da catástrofe anunciada.

O sítio de Janaína e Jefferson já é uma usina de boas ideias, recuperadas da vida simples, ingênua e pura dos antigos sitiantes de nosso Estado. São Paulo nunca foi território de enormes propriedades rurais. Sua vocação era o sítio, verdadeira autarquia. Ali se produzia tudo o que era necessário para a subsistência da família. O cultivo da cana-de-açúcar abortou essa vocação. Hoje, infelizmente, grande parte do Estado é reservada à cana & cana, conforme já escrevi. Cana de açúcar e penitenciárias, pois temos a maior população carcerária do Brasil.

Algo se vincula a essa monocultura. Eliminado o sítio, o agricultor vem para a periferia das grandes cidades e é alvo fácil das facções criminosas, da droga e dos vícios que a vida saudável do campo não conhecia.

Janaína e Jefferson vão resgatar aquilo que deveria ser e que será a salvação de boa parte da mocidade brasileira. Sustentabilidade é conceito pouco explorado em teoria, mas que existia na prática dos antigos sítios. O galinheiro produz adubo para a horta. Nesta, o que não é aproveitado para a cozinha vai alimentar os animais. Há tratamento de água, que volta pura à natureza. Recupera-se o valor purificante das bananeiras, da taloba e do inhame. Abelhas polinizam, produzem mel. Os produtos orgânicos são bem procurados e as receitas antigas mostram que a cozinha paulista não tem do que se envergonhar, em cotejo com a alta cozinha estrangeira.

Importante é que se retoma o amor à terra, tão menosprezado quando ocorreu o fenômeno acelerado da urbanização caótica e de sua mais típica anomalia: a conurbação.

Os cozinheiros que vierem a se formar, sob a orientação confiável de Janaína e Jefferson poderão se tornar vitoriosos nessa esfera de que o Brasil já tem inúmeras razões para se orgulhar. O casal, na sua missão expansiva do conhecimento adquirido e consolidado, faz com que o Brasil acerte o passo na retomada de um desenvolvimento compatível com as urgências planetárias.

Não é pouco, se for feito o balanço do que tem sido feito pelo Estado nas últimas décadas. Empenhado em fazer somente política, pensando em eleição e em sua patologia, a reeleição, descuidou-se do essencial. Dar futuro à sua infância e juventude. Ainda bem que a cidadania desperta supre as lacunas desta República em permanente déficit quanto a seus deveres.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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