Uma prática antiga

Uma prática antiga

José Renato Nalini*

24 de junho de 2022 | 08h00

José Renato Nalini. FOTO: ALEX SILVA/ESTADÃO

A corrupção na educação brasileira é uma prática antiga. Há momentos emblemáticos a serem recordados, com o intuito de refletir sobre como evitar se reiterem. Um deles é a substituição de José Bonifácio de Andrada e Silva, nomeado tutor das crianças imperiais pelo abdicatário Pedro I e hostilizado pelos politiqueiros ávidos de usufruir do poder palaciano.

O decreto ditatorial da Regência Permanente, de 14.12.1833, suspendera José Bonifácio do exercício de sua tutela e indicou para substituí-lo o Marquês de Itanhaém, Manuel Inácio de Andrade Sotomaior Pinto Coelho (1782-1867). Imediatamente reconduz à Corte D. Mariana de Magalhães, que fora afastada por Bonifácio.

Sua biografia é escassa de informações que pudessem enaltecê-lo. Menciona-se um vago curso de humanidades em Lisboa e um curso de infantaria em 1805. Era um desses medíocres que, de tanto gravitar em torno ao detentor do poder, acaba familiarizando-se com o círculo áulico de rastejadores. Era avesso a leituras, considerado pelos diplomatas estrangeiros um homem fraco e desprovido de talentos.

Não oferecia resistência às exigências da libido, pois embora viúvo, suas três últimas esposas foram escolhidas entre a criadagem do Paço. Pandiá Calógeras dizia que o Marquês de Itanhaém tinha um “temperamento euxório”, pois gostava de se casar. E de se enviuvar…

A imprensa da época, livre e desenvolta, noticiava com alarde os namoros do Marquês, encarregado da educação do futuro monarca e de suas irmãs. Descreviam-no como esquelético, com o trejeito de torcer o corpo a cada passo, a debulhar o terço sob o olhar zeloso dos arqueiros da Guarda Imperial. Machado de Assis, em “O Velho Senado”, pinta dessa forma a figura alquebrada de Itanhaém, na sua plena decrepitude qual múmia ambulante.

Ainda assim, conseguia escolher entre as meninas que serviam no Paço, aquelas que o serviriam no leito nupcial. Carcomido, mas bom partido. Mais que fazendeiro, era um senhor feudal em Minas e Rio de Janeiro. Serviçal neutro e passivo, foi obtendo posições, títulos e mais honras, desde os tempos de D. João VI. Sua mediocridade e subserviência o tornaram indispensável para prover cargos que não exigiam tirocínio, inteligência ou acuidade. Não existe um discurso, uma página, um texto que se lhe possa atribuir.

Um único relatório de Itanhaém à Assembleia Geral, de 15.05.1834, dava conta de suas funções como Tutor Imperial. Redigido por outrem, talvez Paulo Barbosa, camareiro e alcoviteiro muito influente à época. O Tutor não fez reservas sobre o estado de saúde do Imperador: era de débil constituição, de nervoso temperamento, sofria do estômago e mal havia escapado dos efeitos de uma febre cerebral.

Procurava mostrar eficiência no projeto de preparação do menino de oito anos para o exercício do governo: “sua educação continua com pasmoso progresso, devendo muito ao talento e espírito indagador e refletido. Sua Majestade Imperial lê e escreve bem; traduz as línguas inglesa e francesa; aplica-se, além disto, à geografia, música, dança e desenho; nisto, principalmente, faz progressos admiráveis, por ser o estudo que mais o deleita. Apesar de aplicar-se a muitos ramos, não é fatigado pelos mestres, que exigem as lições com a parcimônia que as forças e idade do Augusto discípulo permitem”.

Martim Francisco Terceiro, sobrinho-neto de José Bonifácio, chamava Itanhaém de “texugo de política noturna”. Texugo é pequeno mamífero carnívoro, espécie inferior de nossa fauna. O poderoso senhor feudal arrecadou e se apoderou do dinheiro que o Patriarca recusara, pois exercera a tutoria sem qualquer paga. E reproduz um discurso de Japiaçu, em que se alude à “voz pública não contrariada”, a proclamar que Itanhaém “fez do Paço dos Príncipes Pupilos hospedaria universal para todos os seus parentes, aderentes e escravos”.

As práticas nefastas eram e continuam comuns. Com a agravante de que hoje se invoca o nome de Deus, usa-se da Bíblia para carrear recursos ilícitos aos apaniguados, ilude-se a ignorância fanática em sua inabalável e ingênua crença, com o descarado despudor dos crápulas.

O que diria Aquele que expulsou os vendilhões do Templo, pois profanavam a Casa de Seu Pai? Ai dos que escandalizam os inocentes! Melhor seria não tivessem nascido…

Corrupção na educação, portanto, não é novidade. Apenas sofisticam-se os métodos e se aproveitam das modernidades, que garantem eficácia maior nos métodos preordenados à lesão da Pátria.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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