Uma ode à preguiça

Uma ode à preguiça

O mito do alto desempenho e o risco de burn out

Douglas Nogueira*

24 de março de 2021 | 10h07

Douglas Nogueira. Foto: Arquivo pessoal

Não precisa ser PHD em Negócios para traçar um paralelo entre marketing e competitividade. Na real, esta é mãe daquela. Só existe marketing porque uma empresa precisa competir com outra a fim de se conquistar uma parcela do mercado que a outra, fatalmente, perderá. 

Por isso, muitos dos conceitos importados pelo marketing vem de estratégias de guerra. 

Na guerra, alguém precisa perder para alguém ganhar. 

Essa é a essência mais pura do sistema que rege o mercado.

Agora, marcas e empresas são feitas do trabalho de pessoas que são cobradas para que essas metas sejam alcançadas. Quanto mais competitivo o segmento, maior é a cobrança por um alto desempenho. Ainda que só desempenho não seja sinônimo de sucesso, já que não basta competir, é preciso vencer. “Aos vencedores, as batatas” – Memórias Póstumas de Brás Cubas | Assis, Machado. 

Para esse processo damos um novo nome, growth hacking e dale buzzword na descrição de perfis profissionais no Linkedin.  

Então, basicamente, a lógica é essa. Alguém ganha, quando alguém, perde. 

Propósito de marca, programas de diversidade, plataforma sustentável, ações sociais… You name it. Tudo precisa se submeter a essa lógica, nada no mercado foge dessa regra.

Até aí, nenhuma novidade, não é mesmo? Agora, já parou para pensar quem paga a conta dessa competitividade que muitas vezes beira a loucura? 

O ponto perverso desse mecanismo é que mesmo que um profissional, conscientemente, se submeta a esse desempenho “atlético”, nada garante que se obterá sucesso. Afinal, estamos falando de uma competição e do outro lado temos outros profissionais desempenhando para se obter o resultado contrário.  

Mesmo que se tenha alguma sensação de vitória, são várias as batalhas e isso causa uma sensação de eterna dívida. Em um jogo em que o pódium está reservado para poucos e a derrota é a regra para a maior parte dos soldados. 

Essa é uma equação com um resultado certo, a saúde mental das pessoas. 

Amitriptilina, mirtazapina, duloxetina, velafaxina, paroxetina, milnaciprano, fluvoxamina, escitalopram, nefazodona, sertralina, vortioxetina, agomelatina, vilazodona, levomilnacipran, bupropiona, fluoxetina, citalopram, trazodona, cloropramina, desvenlafaxina, reboxetina.

Apesar de ser falar pouco sobre o assunto, se normalizou o uso de medicamentos capazes de dopar e a amenizar os efeitos colaterais de um sistema que cobra seu preço. 

Se fala pouco, porque em um ambiente de alta competitividade mostrar uma fraqueza muitas vezes é sinônimo de fracasso. Então para lidar com o tema, fingimos que ele não existe. 

Até que… Boom.

O burn out, outro eufemismo, para crise do pânico, acontece em escalas cada vez maiores. Mesmo assim se trata do tema em um nível individualizado. Sem falar do problema, de forma ampla e sistêmica, se continuará a pagar o preço com a saúde de muitos.

A glorificação da alta performance é o outro lado nefasto dessa mesma moeda. Basta outra olhadinha no Linkedin e bingo: – capacidade de se manter atualizado com cursos e mais cursos, FOMO, quantidade de livros lidos, cases e mais cases.

Um palco com atores de muito sucesso. Se não acontece com você, algo de errado você deve estar fazendo, certo? 

Tudo isso a custas do que? De uma noite mal dormida? Da perda da apresentação do teatro do seu filho, de um fim de semana com a sua família?

 Vale pagar esse preço? Ou seria esse o único caminho a ser seguido? Sem falar da pouca efetividade em que a produtividade traz em muitos casos. 

Ao contrário do que se pode imaginar, é exatamente no ócio, na preguiça, no intervalo que a criatividade surge. O mercado precisa de novos pontos de vistas, de gente capaz de olhar um problema com outra perspectiva e para isso precisamos da pausa, da sanidade mental.

Mas o que vemos por aí é uma legião de tarefeiros prontos para terminar uma série de exercícios propostos nessa academia.

Contraditoriamente, a produtividade é contraproducente. 

Agora que eu pintei o … você deve estar se perguntando, ok mas e aí? Qual a solução? 

Não quero te desapontar, mas não tenho uma resposta pronta para solucionar essa equação, mas sigo buscando caminhos alternativos. Se quiser bater um papo sobre o assunto, você pode me encontrar pelo nome Douglas Nogueira – Lazy hacking. 

*Douglas Nogueira, diretor de planejamento da agência Talent Marcel

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