Uma nova vida

Uma nova vida

Delcídio do Amaral*

31 de dezembro de 2017 | 06h25

Delcídio Amaral. Foto: Dida Sampaio/Estadão

Algumas pessoas questionam o que muda na vida de alguém submetido a um processo de colaboração premiada. As condições impostas no acordo judicial nos levam, obviamente, a adotar uma rotina completamente diferente daquela com a qual nos acostumamos. A restrição de liberdade impede que se permaneça na rua após às 23h, proíbe viagens a outros estados – a não ser sob convocação da Justiça ou do Ministério Público – além de trazer outros impactos no nosso cotidiano.

Desde que assinei o acordo que resultou na minha colaboração no âmbito da Operação Lava Jato, tenho cumprido rigorosamente – e não poderia ser diferente – tudo o que foi definido pela Justiça. Além de adotar uma nova rotina, tenho ido à Brasília, Curitiba, Rio de Janeiro, São Paulo e onde mais é preciso, para prestar depoimento nos diferentes processos deflagrados com os fatos que revelei com coragem e que estão se confirmando com os desdobramentos das investigações.

Por outro lado, essa rotina tem me proporcionado atividades novas e, sem dúvida, proveitosas sob vários aspectos. Estudei profundamente meu processo, verificando, com o auxílio de advogados experientes e juristas renomados, a inaplicabilidade dos procedimentos contra mim adotados, desde a prisão em flagrante, prevista apenas, quando se trata de parlamentares, em caso de crimes inafiançáveis como sequestro, assassinato ou tráfico de drogas, passando também por uma gravação ilegal, feita por terceiros, sem autorização judicial. Convém ressaltar que a suposta obstrução de Justiça a mim atribuída é simplesmente um crime impossível, tendo em vista que os diálogos ilegalmente gravados não tiveram nenhuma consequência, como os próprios autos do processo confirmam. Dispensa comentários o rito sumário da cassação do meu mandato de senador, sem nenhum direito à defesa, contrariando o estabelecido na Constituição.

Nesta nova fase da minha vida, passei a me dedicar quase que integralmente à pecuária, tradição da minha família há pelo menos 150 anos no Pantanal Sul-mato-grossense, o que tem me permitido aprender diariamente com a sabedoria da gente simples pantaneira, forjada na lida dura do campo.

Antes de ser político, construí uma longa história como executivo de grandes empresas estatais e privadas (Eletrosul, Eletronorte, Vale, Shell e Petrobrás). Por isso, tenho aproveitado as noites de recolhimento domiciliar para me atualizar sobre assuntos que me interessam nas áreas de mineração e energia, especificamente no que se refere aos avanços tecnológicos, cada dia mais fascinantes e sem limites. Uso também esse tempo noturno para aprofundar um hábito que me acompanha desde a juventude, a leitura, especialmente de livros sobre grandes personalidades da história, que me ajudam a compreender a dinâmica dos fatos que pautam os principais acontecimentos mundiais. Tomo a liberdade de sugerir um desses livros: Pós-Guerra, do escritor inglês Tony Judt, uma verdadeira aula de geopolítica.

No processo de adaptação à essa nova rotina três fatores têm sido fundamentais: o amor incondicional da minha família, cada dia mais forte e unida, o apoio dos verdadeiros amigos, que não são poucos, e o aprofundamento da minha fé cristã.

Não posso deixar de registrar os altos e baixos emocionais e psicológicos comuns a pessoas que passam pela experiência que tenho vivido. Isso se acentua quando me deparo com fatos reconhecidamente de maior gravidade, envolvendo as maiores autoridades da República (malas de dinheiro e concretas obstruções de Justiça), e que mereceram tratamento oposto ao que o me foi dispensado.

Por tudo isso, depois de um ano como o de 2017, cheio de contradições, frustrações e desesperança, desejo que 2018 marque a retomada da construção de um Brasil cidadão, socialmente justo, fraterno, solidário e com oportunidades para todos.

Feliz Ano Novo!

Delcídio do Amaral é engenheiro, pecuarista e ex-senador da República.

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