Uma nova tecnologia vai levar os brasileiros para o futuro: expectativa e possibilidades do 5G

Uma nova tecnologia vai levar os brasileiros para o futuro: expectativa e possibilidades do 5G

Wilson Cardoso*

18 de março de 2021 | 06h45

Wilson Cardoso. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Já não podemos imaginar um cotidiano sem o uso de aplicativos para facilitar o dia a dia. Parece até trivial acompanhar um entregador percorrendo o caminho até sua casa com uma refeição que acabou de ser preparada. Porém, há muita tecnologia envolvendo aquele ícone em movimento em sua tela. Esse rastreamento em tempo real e outros recursos e aplicativos que impactaram nossa rotina só foi possível com a geração de internet móvel 3G e sua evolução, o 4G, como conhecemos hoje. E a próxima geração já existe.

Muitos já ouviram sobre o 5G e a sua promessa de uma revolução que vai além de uma ultra velocidade, envolvendo carros automáticos, indústria 4.0, inteligência artificial, computação em nuvem, realidade virtual, internet das coisas e telemedicina. Pois essa promessa é real.

Para dimensionar a evolução da tecnologia que temos no país atualmente, o 4G, para o 5G, podemos focar na tríade: velocidade, latência e confiabilidade. Em relação a velocidade da conexão, hoje alcançamos 10 megabytes por segundo enquanto a expectativa do 5G é chegar de 100 megabytes por segundo em velocidade média a velocidades extremas de até 1 gigabyte por segundo – são velocidade compatíveis com as redes de fibra óptica, só que no seu smartphone.

O segundo comparativo é a latência, que corresponde ao tempo de resposta entre um aparelho e os servidores de internet. O famigerado delay das ligações em vídeo, aqueles segundos até que a pessoa do outro lado veja e ouça o que falamos, que tanto enfrentamos no último ano, com a transferência das conversas e encontros para o virtual.

Outra característica do 5G que difere das gerações de rede anteriores é que ele poderá lidar com milhões de dispositivos de Internet das Coisas ligados ao mesmo tempo por quilômetro. Estamos falando de sensores e equipamentos que medem nossa pressão arterial, temperatura, ao ar-condicionado em nossas casas, ou até mesmo no campo, controlando umidade do solo e uso de pesticidas.

Um exemplo da aplicabilidade do 5G em nossa sociedade é o uso de carros autônomos. Sabemos que já existem, claro, mas o tempo de resposta do 4G ainda não é o suficiente para evitar acidentes em situações extremas, além de não suportar um número tão grande de dispositivos conectados.

Pensando na extensão do nosso território, por exemplo, poderemos substituir helicópteros por drones para fiscalizar. Eles poderão também sobrevoar grandes áreas florestais para detectar incêndios, agilizando o posicionamento das brigadas. Considere a possibilidade de programarmos várias máquinas agrícolas para trabalharem conectadas sete dias por semana, 24 horas por dia. Máquinas como empilhadeiras sendo programadas para carregar e descarregar materiais em uma rota pré-estabelecida.

Definitivamente o 5G acelera o aperfeiçoamento na tecnologia robótica. Na fábrica, ajudará na programação dos robôs que atuam nas linhas de produção. Na área da saúde, podemos ter robôs para entregar medicamentos aos pacientes em hospitais, substituindo o trabalho dos enfermeiros que viajam até 10 quilômetros por semana para realizar essa tarefa.

É importante antecipar a todos o conhecimento de que a conexão 5G vai muito além de baixar e enviar arquivos mais rapidamente, reduzir o tempo de resposta entre diferentes dispositivos e tornar as conexões mais estáveis. A transformação se torna radical quando pensamos nas possibilidades de aplicação.

Também não podemos esquecer da revolução promovida pelo 5G nos smartphones. Suas altas velocidades permitem que muito do processamento das tarefas deixe de acontecer no chip do aparelho e passe a ocorrer na nuvem, da mesma forma que permitiu a revolução na potência dos computadores. E isso pode se aplicar com outros acessórios conectados como itens médicos, pulseiras e relógios. Podemos prever uma nova geração de aparelhos eletrônicos como consequência desse salto na tecnologia de conexão.

Essa quinta geração de rede de internet móvel definitivamente irá ditar a conectividade nesta década em todo mundo. Mas afinal, quando toda essa evolução chegará ao Brasil? Bom, na América Latina, acompanhamos o pioneiro Uruguai, que possui o 5G há dois anos e o Equador entrou em operação neste mês. O Chile atravessou a concorrência de frequência e é neste momento que nosso país se encontra, no pontapé inicial para a implementação de toda essa revolução, que pode chegar ainda até o final do ano por aqui.

Neste momento, estamos ofertando em um leilão faixas de frequência em quatro bandas. As principais faixas para o 5G serão as de 3,5 GHz – que vão permitir conexões rápidas em longo alcance e 26 GHz – chamada de faixa milimétrica e que vai permitir aplicações com tempo mínimo de resposta, mas que exige a instalação de mais antenas por ter um alcance de sinal limitado.

Essas faixas são como “rodovias” onde o sinal vai atravessar e ao comprar uma das faixas, uma determinada empresa poderá fazer a sua exploração econômica, ofertando conexão para a população. A estimativa da Anatel de arrecadação com o leilão é de R$35 bilhões, sendo que a maior parte desse valor será destinada para obrigações de investimentos pelas empresas vencedoras. Ou seja, além de toda a conectividade que a tecnologia permitirá, um dos pontos altos da implementação no Brasil não será apenas conectar diferentes devices de nossa casa, carros e aplicativos, mas a contrapartida prevista em conectar melhor e até mesmo pela primeira vez mais brasileiros. É o caso de localidades isoladas que não ficarão desassistidas, sendo determinado por portaria do governo que sejam atendidas com banda larga móvel 4G ou superior.

A estimativa é que 8,8 milhões de brasileiros sejam incluídos em mais de 18 mil localidades, trazendo esse futuro para todos nós.

Ainda em 2021 a nova tecnologia será capaz de suprir uma demanda que hoje não é atendida por redes de fibra óptica, uma vez que é mais viável construir uma torre 5G do que aumentar o cabeamento da rede fixa. Toda a revolução do 5G ocorrerá gradualmente, claro, mas ela está para começar no Brasil.

*Wilson Cardoso, engenheiro e PhD em Telecomunicações, é membro do IEEE (Instituto de Engenheiros Elétricos e Eletrônicos)

Tudo o que sabemos sobre:

Artigo5G

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.