Uma nova encruzilhada

Uma nova encruzilhada

Marcus Vinícius De Freitas*

28 de junho de 2022 | 12h35

Marcus Vinícius De Freitas. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

De tempos em tempos, a humanidade atravessa encruzilhadas que determinam o seu destino. Ao vislumbrarmos o período único da história em que nos encontramos, a encruzilhada atual inclui dúvidas quanto à paz ou guerra, ascensão e declínio de potências, e cooperação ou confronto. Num mundo turbulento como o atual, contrastamos duas perspectivas distintas quanto ao futuro.

Por um lado, a 14ª Cúpula dos BRICS, realizada em 23-24 de junho, surpreendeu pelo reiterado compromisso do bloco com o multilateralismo, inclusividade na governança global e reiterada ênfase no papel importante das Nações Unidas, invocando inovação para retomada do crescimento global. O conflito Rússia-Ucrânia, que poderia diluir a relevância do encontro, não o fez, revelando uma postura positiva dos cinco países quanto futuro da ordem internacional e uma postura consensual quanto à cooperação e desenvolvimento. E não deveria ser diferente, afinal o BRICS reúne os dois países mais populosos do mundo, com um poder de compra crescente, dois que podem ser considerados celeiros do mundo, e um que é exemplo de transição e consolidação democrática.

O BRICS não pretende ser um clube não exclusivo, mas busca construir um multilateralismo genuíno, menos hierárquico e mais propenso a novas parcerias.  Na Cúpula do BRICS, a impressão estava clara de que o objetivo era ampliar seu alcance, diminuir o cabo de guerra entre os países e melhorar a estrutura da governança global.

Este espírito, por certo, difere daquilo que observamos na Cúpula do G-7, que, desde o seu início, em 1975, na França (o Canadá seria incluído a partir de 1976), sempre teve um caráter elitista e excludente quanto à coordenação da política econômica internacional. A cúpula do G-7, na Alemanha, ainda reflete este conceito excludente. E a visão compartilhada de crença na democracia e no estado de direito constituem mais teoria do que prática. Muito do que se discute raramente se transforma em realidade. Os anúncios da Cúpula, em Cornualha, no Reino Unido, em 2021, quanto à questão dos investimentos em infraestrutura global pouco se transformou em realidade, por exemplo.

O G7 tampouco possui o mesmo poder ou influência do passado. Embora com a Guerra da Ucrânia – elemento importante das discussões, inclusive com a participação virtual de Volodomyr Zelenskyy – se tente criar uma nova guerra fria, agora em dois campos – Rússia e China – o fato é que as decisões do G-7 já não reverberam globalmente na mesma intensidade. A única coisa que conseguiram prescrever, no caso da Guerra da Ucrânia foi mais sanções. E as sanções não têm alcançado os resultados pretendidos, pois rapidamente se observou que a assimetria do impacto das sanções constitui um dos elementos fundamentais da precariedade de sua aplicação. Além disso, muitos dos países compreenderam, também, que as medidas adotadas têm mais um caráter de punir a Rússia e condená-la ao ostracismo global, incitando, até mesmo, a uma troca de regime naquele país, do que, de fato, fazer prevalecer a primazia das regras do direito internacional quanto à invasão territorial.

O fato é que a pandemia da Covid-19 revelou o declínio do poder relativo do Ocidente, sua inabilidade em tratar de uma questão sanitária de maneira racional, o distanciamento de parceiros históricos, como Europa e Estados Unidos, além da fragilidade da economia global. Os longos lockdowns e a velocidade com que o Coronavírus se espalhou no Ocidente revelaram, comparativamente ao sucesso no combate realizado pelos países do Leste da Ásia e no retorno à normalidade, o quanto o Ocidente se encontra, de fato, enfraquecido.

Em outras áreas, o G-7 também tem ficado abaixo das expectativas. A redução do uso de combustíveis fósseis – que estes países deveriam ser os primeiros a implantar em razão do histórico poluidor de cada um deles – ficou ainda mais distante, na prática, depois da retomada do uso de carvão como elemento fornecedor de energia na Europa. As sanções – que têm um caráter mais punitivo do que persuasivo – por certo não têm sido as mais acertadas. É por este motivo que os países em desenvolvimento observam, com dúvida e desconfiança, o discurso das mudanças climáticas em razão da inação ou do discurso esvaziado pela falta de ação ou efetiva transferência de recursos para preservação ambiental.

O maior desafio de todos, no entanto, reside na questão alimentar. As sanções estão criando um problema mundial de falta de grãos e, principalmente, fertilizantes. Países que são potências agrícolas estão, paulatinamente, dando-se conta de que as safras de 2023 e 2024 serão altamente impactadas pela falta de fertilizantes no mercado internacional e pelo custo elevadíssimo na aquisição destes. Eles deverão agradecer ao G-7 por esta situação.

O G-7, embora ainda represente um poder econômico global acentuado, deveria reavaliar sua atuação na resolução dos desafios atuais. A Cúpula dos BRICS revelou um grupo mais amadurecido em seus objetivos e possibilidades de atuação. As palavras-chave – cooperação e desenvolvimento – deveriam voltar a ser a prioridade do G-7.

*Marcus Vinícius De Freitas, professor visitante, China Foreign Affairs University. Senior Fellow, Policy Center for the New South

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