Uma mulher ornitorrinco

Uma mulher ornitorrinco

Cris Monteiro*

04 de novembro de 2020 | 14h15

Cris Monteiro. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Sou mulher oriunda de família de baixa renda e, por um caminho bem difícil, me tornei diretora de um grande banco americano. Ideologicamente sou uma liberal e penso que ações devem ser aplicadas para fechar o gap entre homens e mulheres em posição de poder. Não creio em meritocracia sem que as mesmas oportunidades sejam concedidas a todos. No entanto, por esta minha convicção, os liberais me olham com desconfiança. Uma traidora do livre mercado? Vou também aos ambientes com feministas que se encaixam no espectro da esquerda brasileira e, quando pondero que os homens, assim como as mulheres, perdem muito em função da desigualdade de gênero e não podemos responsabilizá-los totalmente pela situação que vivemos, muitas torcem o nariz para mim. Rica liberal, lacaia do capital. A estranha sou eu, uma mulher meio que ornitorrinco.

As questões de gênero, tão urgentes, acabam entrando numa pauta proibitiva, por causa da polarização política. Há situações gravíssimas que todos os espectros políticos e partidários precisam compreender e agir. Manchetes de capas dos grandes jornais informam que as mulheres têm sido mais penalizadas ainda que os homens por conta da pandemia do novo coronavírus. A situação só se agrava. A participação das mulheres no mercado de trabalho é a menor nos últimos 30 anos: uma pesquisa feita pelo FMI demonstra que quase metade do trabalho do mundo não é remunerado e a maior parte dele é feito por mulheres, dentro de casa. Segundo o IBGE, ainda antes da pandemia, as mulheres trabalhavam, em média, 10,4 horas por semana a mais que os homens, em tarefas domésticas. O Fórum Econômico Mundial indica que, mantido o atual ritmo, levaremos nada menos que 250 anos para termos equidade de gênero no mundo corporativo.

Nossa cultura ainda exige que a mulher esteja mais presente em casa no cuidado do lar, dos filhos e dos pais idosos. O homem não sofre a mesma pressão, é fato. Embora alguns rapidamente se levantem e digam que ora bolas, lavam as loucas e trocam as fraldas de seus filhos e, desta forma, ajudam suas mulheres na lida da casa. Sempre escuto isso nas minhas palestras sobre Diversidade e Equidade de Gênero. Eu mesma tenho uma irmã mais velha e um irmão mais novo. Hoje olho para o passado e me pergunto: onde estava o meu irmão quando minha mãe dividia as tarefas domésticas entre mim e minha irmã? Que tipo de homem será meu irmão hoje? Minha mãe foi criada assim por sua mãe, que, por sua vez, também foi criada do mesmo modo pela mãe dela. Resultado: mulheres lavando louça e homens sem entender que o mundo mudou enquanto eles assistiam ao jogo na TV.

Muitos dizem que os simpáticos às políticas ditas liberais não têm olhos para o social nem para as minorias. Que nós, liberais, comemos criancinhas com batata assada. Não é bem assim. Liberais acreditam que a liberdade precisa ser para todos. Aprendi isso com meu amigo Mano Ferreira, do grupo Livres, no ano passado, após um debate que muito me fez pensar no meu papel de mulher liberal.  Naquele momento, o assunto meritocracia gerou palmas fervorosas na plateia quando alguém disse que o esforço individual tudo conseguia. Essa fala me deixou muito inquieta. Minhas ponderações não geravam aplausos daquela plateia liberal raiz. Eu falava que a coisa não era bem assim: as mulheres não partem do mesmo lugar que os homens. Em especial a mulher negra e, sendo assim, as que alcançavam a linha de chegada faziam muito mais esforço – e que nem todas têm, sequer, o espaço para fazer tanto esforço.

Meu discurso estava muito mais alinhado ao feminismo que ocupa as frentes de esquerda e isso gerava caras e bicos dos liberais, além de silencio sepulcral quando eu emitia minhas opiniões sobre as enormes barreiras que as mulheres têm que ultrapassar para chegar “lá”.

A minha história de vida é de exceção. E todos temos que parar de festejar a exceção. Devemos é trabalhar para termos a regra: sucesso individual, sim, mas desde que todos tenham as mesmas oportunidades. Podemos nos sentar e esperar os próximos dois séculos e meio para alcançar a equidade de gênero, como alertou o Fórum Econômico Mundial. Ou podemos nos reunir e discutir o assunto sem culpar o homem, sem adotar discurso raivoso e sem pensar que o mercado vai resolver tudo em tempo. Precisamos ser mais criativos, mais responsáveis como cidadãos que buscam um mundo melhor para todos. Afinal, não é isso que todos queremos?

Se reconhecer e autoproclamar feminista em uma plateia de liberais equivale a xingar a mãe de Jesus Cristo. E, por outro lado, dizer que o homem não é o único culpado pelo problema em uma mesa com pessoas mais à esquerda me faz sempre correr o risco de ficar falando sozinha. Mas será que posso ser feminista e achar que o homem também perde muito com a desigualdade de gênero? E que operam em seus vieses inconscientes e que precisamos pô-los à mesa e conversar muito sobre o tema? Posso ser liberal e defender cotas provisórias que encurtem o período para que a mulher alcance posições de poder? Posso. Só espero não ter que continuar sendo um ornitorrinco por muito tempo mais.

*Cris Monteiro, 59 anos, foi executiva do mercado financeiro por 30 anos. É ativista pela educação e pelos direitos femininos

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