Uma Igreja com rosto indígena

Uma Igreja com rosto indígena

Padre Donizete Ferreira*

18 de abril de 2021 | 07h55

Padre Donizete Ferreira. FOTO: DIVULGAÇÃO

Quando pensamos no tema educação, nos lembramos de grandes pedagogos, pensadores e estudiosos dos séculos passados, mas raramente associaremos este tema tão interessante a algum santo da Igreja Católica. Porém, com tamanha alegria, apresento para vocês uma referência neste assunto: São João Bosco, conhecido popularmente como Dom Bosco, um sacerdote italiano, que viveu no século XIX, fundador da Congregação Salesiana e canonizado em 1934 pelo Papa Pio XI.

Dom Bosco enfrentou na cidade de Turim, localizada no norte da Itália, um grande desafio: formar e educar crianças, adolescentes e jovens, excluídos e explorados por uma sociedade oportunista, em plena Revolução Industrial, no qual a educação não era nem um pouco evidenciada, pelo contrário, estava sucumbida pela mão de obra barata e pelas cifras lucrativas dos ricos barões, donos de fábricas com turnos intermináveis e condições precárias de trabalho.

Em seu chamado vocacional, aquele pobre sacerdote de estatura baixa e de um coração gigantesco havia compreendido que seu campo de missão seria acolher aqueles meninos marginalizados, dar-lhes um lar digno, repleto de amor, capacitação profissional e, acima de tudo, uma espiritualidade pautada na misericórdia de Deus. E foi assim que, incansavelmente, Dom Bosco fez. Impulsionado pelo lema: “Da mihi animas cetera tolle”, que significa “Dai-me almas e ficai com o resto”, ele gastou toda a sua vida pela salvação dos jovens, principalmente dos pobres e abandonados.

O santo dos jovens, comoNa ocasião em que comemoramos o dia do índio (19/04), somos chamados como Igreja a lançarmos um novo olhar sobre essa riqueza cultural do nosso país. Aproximemo-nos desses nossos irmãos com aquela mesma atitude que Moisés (cf Ex 3,5) teve ao entrar em contato com um solo sagrado, isto é, retirando as sandálias dos preconceitos, das ideias predefinidas, dos juízos errôneos, das posturas excludentes em relação a um povo tão amado.

Acheguemo-nos com todo o respeito, “porque os povos têm a própria identidade, todos os povos têm a própria sabedoria, uma consciência de si mesmos, os povos têm um modo de sentir, um modo de ver a realidade, uma história, uma hermenêutica e tendem a ser protagonistas da sua história com estas características, com estas qualidades” (PAPA FRANCISCO, Abertura dos trabalhos da Assembleia Especial do Sínodo dos bispos para a região Pan-Amazônica).

Recentemente a Igreja se debruçou sobre a realidade da Amazônia, tratando, dentre vários temas, do valor cultural dos povos que ali vivem. Refiro-me ao Sínodo Pan-Amazônico, realizado em outubro de 2019, proposto pelo Papa Francisco, que objetivava encontrar novas vias para a evangelização daquela porção do Povo de Deus, particularmente os povos indígenas, muitas vezes esquecidos e sem prospectiva de futuro. Este Sínodo, por sinal, mudou o habitual cenário eclesiástico no Vaticano. Além das tradicionais vestes clericais, a Santa Sé recebeu o colorido dos trajes indígenas, o som de suas músicas e as danças e expressões de fé desse povo.

O Sínodo fez notar que a Amazônia é uma amálgama de crenças, a maioria delas cristãs, e que, diante dessa realidade, abrem-se verdadeiros caminhos de comunhão para todos. Por isso, o diálogo ecumênico, inter-religioso e intercultural, deve ser assumido como caminho indispensável da evangelização na Amazônia.

Esse diálogo inter-religioso ocorre especialmente com as religiões indígenas e os cultos afrodescendentes. Essas tradições merecem ser conhecidas, compreendidas em suas próprias expressões e em sua relação com a floresta e a mãe terra. Juntamente com eles, os cristãos, com base na sua fé na Palavra de Deus, colocam-se em diálogo, partilhando suas vidas, suas preocupações, suas lutas, suas experiências de Deus, para o aprofundamento mútuo da fé e para atuarem juntos em defesa do que lhes é comum. Para isso, as Igrejas da Amazônia precisam desenvolver iniciativas de encontro, estudo e diálogo com os seguidores dessas religiões. O diálogo sincero e respeitoso é a ponte para a construção do bem viver (SÍNODO DOS BISPOS, Documento final, n.25).

Nesta importante data, é necessário reconhecer que o pensamento dos povos indígenas oferece uma visão integradora da realidade, capaz de compreender as múltiplas conexões existentes entre tudo o que foi criado. Também encontramos outros valores, como a reciprocidade, a solidariedade, o sentido de comunidade, a igualdade, a família, sua organização social e o sentido de serviço.

Uma aproximação despretensiosa a esses nossos irmãos, pode gerar um belo intercâmbio de dons.

*Padre Donizete Heleno Ferreira é missionário da Canção Nova e assessor da Secretaria-Geral da Comunidade

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