Uma grande Babel

Uma grande Babel

Bruno da Silva Antunes de Cerqueira*

21 de maio de 2021 | 06h30

Bruno da Silva Antunes de Cerqueira. FOTO: DIVULGAÇÃO

O debate público no Brasil tem se tornado, diuturnamente, um diálogo de surdos. Todos têm razão e, paradoxalmente, o Outro sempre está proibido de tecer opiniões, em virtude de seu “lugar de fala”.

Uma das razões para o fenômeno está, não há dúvida, no academicismo à brasileira, rechaçado em texto clássico de Rosana Pinheiro-Machado. Do alto de suas cátedras, nenhuma delas de São Pedro, os professores universitários brasileiros se autodenominam “a academia” e olham de soslaio, quando não com franco menoscabo – e despeito, naturalmente –, para o IHGB, a ABL, a ABC, a ABM, os IHGs, a SPBC, esta última agora graças aos maus ventos voltando a ser valorizada, e têm a pachorra de considerar que pesquisas reais são apenas as intentadas nas suas faculdades, já que também há clara hierarquização de instituições de Ensino Superior nessa “cosmovisão”. Num país em que grande parte do povo é analfabeto funcional e semianalfabeto, o academicismo à brasileira constitui praga vicejante, em contraste com a revolução educacional e a verdadeira democratização do ensino que todos dizem defender.

Encastelados, os academicistas brasileiros lamentam o pouco caso dos governos federal, estaduais e municipais no incentivo à pesquisa científica nas mais variadas instituições disponíveis, sem proceder a uma autocrítica necessária sobre quão grande é o fosso entre o que se produz e o que se revela ao conjunto dos brasileiros, na práxis cidadã exigida do ofício do magistério.

Na pandemia-pandemônio que tem vivido o Brasil, a polarização dos extremos políticos tem mostrado o quanto esse cenário é deletério para o futuro da juventude brasileira, sabe-se lá Deus qual será. Pois é nas margens que se alimentam os recalques. Em pleno início do XXI e do Terceiro Milênio, vemos surgir entre nós, em graus variados e com performances esdrúxulas, neofascistas, neonazistas e neo-stalinistas. Não custa lembrar que os ismos do XX são todos legatários dos ismos do XIX: nacionalismo, positivismo, cientificismo e comunismo.

De novo não custa lembrar que os do XIX eram legatários dos do XVIII: iluminismo, racionalismo e liberalismo. E há um problema em tudo isso, como Hannah Arendt chamou a atenção e já Max Weber antes dela: o desencantamento do mundo, com a destruição dos aparatos mentais que as religiões costumavam oferecer, fatalmente levaria os humanos à banalização do mal de modo nunca dantes visto. Para a maioria dos historiadores é assente que o culto deificante à “Razão” e à “Ciência” estava absolutamente presente no nazismo, por exemplo, e que, portanto, o cume da razão pode ter a máscara cínica, mas não cênica, da irrazão.

No Brasil, como se pôde ver na semana passada, a da Abolição da Escravatura, os discursos tomam o lugar das pesquisas científicas. Historiadores não negros, alguns renomados, sentenciam que a Lei Áurea – o estatuto da Igualdade Racial do século XIX, duramente conquistado por abolicionistas negros e brancos, ricos e pobres – pode ser lembrada, mas “jamais celebrada”. De outro lado, narrativas da “dádiva isabelina”, por parte de monarquistas direitistas, e da “farsa de brancos”, por parte de militantes de movimentos negros, são reiteradas.

Como lembra Ricardo Henrique Salles, biógrafo de Nabuco, ambas as historietas aniquilam o movimento abolicionista. Não bastasse a República de 1889 ter varrido do mapa o Partido Abolicionista – e também o Partido Capoeira, no dizer de Carlos Líbano Soares –, hoje a memória desses homens e mulheres é enxovalhada, recebendo a culpa pelas consequências do ostracismo a que foram relegados no período de suas biografias em que mais poderiam ter trabalhado pelo Brasil. Uma verdadeira sandice.

Mas nem tudo são espinhos. Em meio a essas lutas memoriais renhidas, que constituem campos de batalha por excelência, passou despercebida a aprovação, na Comissão de Cultura da Câmara, do projeto de lei da Deputada Joênia Wapichana, que propõe algo que já deveria ter ocorrido há muito tempo: será alterada a nomenclatura oficial varguista para o dia 19 de Abril. Do racista e assimilacionista “Dia do Índio”, teremos agora o “Dia da Resistência dos Povos Indígenas”. Joênia, que como sempre lhe digo, é a “História do Brasil ambulante”, é a primeira deputada federal indígena do parlamento brasileiro, mas certamente não será a última.

Por fim um comentário sobre a cultura de cancelamento que agudiza a Babel brasileira, anteriormente já abordada aqui por Marcelo Copelli. Na Roma Antiga, os estádios se enchiam da “plebe ignara”, como a definiam os senadores, para assistir aos munera entre escravizados ou homens livres pobres, que compunham a maior parte dos gladiadores, celebrizados na sétima arte. Do alto do pulvinar (camarote imperial do anfiteatro), cabia a César aplacar a sede de sangue do espetáculo e conceder direito de vida ou morte ao perdedor da luta. O cancelamento popular, neste caso, era fatal, em que pese, muitas vezes, ser demandado pelo próprio perdedor…

Não sejamos desavisados. Clio, nossa musa maior, é uma senhora ciosa de seu império da ironia. Do alto do Monte Hélicon, ela pode até nos observar com alguma compaixão, mas não deixará de exigir de nós o seu culto, perenemente.

*Bruno da Silva Antunes de Cerqueira é presidente da Comissão de Defesa dos Direitos dos Povos Indígenas da OAB-DF e criador do canal de YouTube História do Brasil Como Você Nunca Viu

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