Uma força-tarefa para um Brasil pós-pandemia

Letícia Piccolotto*

14 de julho de 2020 | 17h46

Letícia Piccolotto. Foto: Divulgação

Estamos vivendo um ano que entrará para história por conta do efeito devastador causado pela pandemia do novo coronavírus mundialmente. A doença, que já se instalou há alguns meses, tem trazido efeitos colaterais que não afetam apenas a saúde, mas tem impactado todas as esferas da sociedade. De repente, mudamos a nossa maneira de viver e conviver com os outros, de trabalhar, de se locomover e de consumir. Não somos mais os mesmos e o mundo será bem diferente quando tudo isso passar.

Os desafios que estamos enfrentando serão ainda maiores nos próximos meses devido ao cenário de incertezas em que estamos inseridos. Por mais que a retomada econômica já esteja se iniciando em muitos estados e cidades, estamos vivendo os impactos socioeconômicos do isolamento, medida necessária para diminuir o avanço da doença.

O Brasil tem fortalezas nas quais pode investir para sua retomada. O agronegócio, por exemplo, tem um papel central em nossa economia, contribui com 25% do PIB (Produto Interno Bruto). Ou seja, temos dados suficientes para que esse setor mereça a devida atenção. Só os grãos produzidos aqui alimentam cerca de 1,2 bilhão de pessoas em todo mundo, segundo a Embrapa, além de garantir 20% dos empregos gerados no país. Mas até mesmo esse gigante tem sofrido as consequências da crise. O fechamento de restaurantes, bares, cafeterias e a menor circulação de veículos, principalmente nas grandes cidades, por exemplo, resultaram na queda de 60% no consumo de etanol no início da quarentena, trazendo como resultado um desempenho 40% abaixo da média para o setor canavieiro.

Além disso, a pandemia destruiu 7,8 milhões de postos de trabalho no Brasil até o mês de maio e a taxa de desemprego entre jovens foi de 27,1% no primeiro trimestre de 2020, de acordo com o IBGE. Entre os postos de trabalho perdidos, 5,8 milhões são de empregos informais, que somam os profissionais sem carteira assinada e os que trabalham por conta própria. O campo educacional também foi afetado. Segundo a Unicef, 95% das crianças ficaram fora da escola na América Latina e no Caribe, número equivalente a 1,5 bilhão de estudantes.

Com essas consequências e a dificuldade de se manter, milhares de brasileiros se inscreveram para receber o auxílio-emergencial oferecido pelo governo federal. A burocracia em aprovar os cadastros de famílias que necessitam desse dinheiro e os desafios para entender toda a funcionalidade desse fundo, também escancararam a necessidade de um governo e mais digital. 

Sim, os problemas já existiam antes da pandemia e ficou claro o quanto precisamos de um movimento para melhorar todas essas questões, tendo em vista que temos um mundo desafiador quando essa crise passar. Aliás, uma crise traz outra, mas como sempre digo, é a partir delas que é possível enxergar oportunidades, sair da zona de conforto e viver novas possibilidades.

A transformação digital, discutida há anos e tratada como tema futurista, nos mostra isso. Ela chegou em meio à crise, trouxe inúmeros benefícios para mantermos o trabalho remoto, consultas ao médico, convivência com amigos e tantas outras coisas. A inovação nunca foi tão discutida e demandada como agora para solucionar problemas que já estamos enfrentando e os que ainda virão.

Por isso, programas que incentivem essas soluções e que podem auxiliar o poder público são muito bem-vindos. Como fundadora do BrazilLab, hub de inovação e tecnologia para governos que acelera soluções e conecta startups e o Poder Público, iniciamos o programa Força-Tarefa covid-19.

A nossa busca é por startups e, pela primeira vez, estamos incluindo pequenas e médias empresas que tenham inovações para três setores principais. Para a educação, por exemplo, queremos soluções que ofereçam ensino à distância, capacitação profissional, desenvolvimento de habilidades e competências do século XXI e também a democratização do acesso. Além disso, queremos tecnologias de inclusão produtiva que estejam voltadas ao desenvolvimento de microempreendedores, a criação de oportunidades para o trabalho de jovens, a oferta de apoio ao desenvolvimento do empreendedor rural e o engajamento com empresas, conexão com profissionais e reskilling. Para a atuação de um governo digital, buscamos ferramentas que possibilitem, por exemplo, o trabalho remoto, o desenvolvimento de serviços digitais para os cidadãos, a redução da burocracia e a ampliação de ações de transparência dos governos.

Esta iniciativa inédita vem para ajudar o nosso país e trazer muitas oportunidades. É um movimento que queremos e precisamos diante do que ainda temos que enfrentar nos próximos meses. A pandemia não acabou e a crise ainda está longe de ter um fim. Mas startups, pequenas e médias empresas inseridas nesse ecossistema GovTech terão um papel fundamental para mudar o rumo da nossa história. Os brasileiros têm veia empreendedora e a Associação Brasileira de Startups (Abstartups) mostra isso. Há mais de 13 mil startups no país e muito trabalho pela frente. Não tenho dúvida em dizer que precisamos de uma força tarefa para um Brasil pós-pandemia.

*Letícia Piccolotto é Presidente Executiva da Fundação BRAVA e fundadora do BrazilLAB

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