Uma ética verdadeiramente empresarial

Uma ética verdadeiramente empresarial

José Renato Nalini*

13 de abril de 2021 | 13h00

José Renato Nalini. FOTO: ALEX SILVA/ESTADÃO

Ética, o meu mantra predileto, é a matéria-prima de que o mundo mais se ressente. E o Brasil, particularmente.

Embora o verbete esteja em todos os discursos, notadamente pronunciados por quem não tem familiaridade com ele, é ausente na prática. Não por sua complexidade. É algo simples de se entender. Ética é comportar-se bem. O que é “comportar-se bem?”. É não causar o mal a ninguém. É fazer conciliar os seus interesses com os interesses alheios.

Coisa difícil! Os interesses parecem agredir-se mutuamente. É fácil verificar o antagonismo entre patrão e empregado. Aquele que emprega e é o responsável pelo salário, que sustenta o trabalhador, é sempre considerado um espoliador da força alheia. O pagamento é ínfimo, nunca próximo ao valor que o prestador de serviços atribui ao seu esforço.

O empresário tradicional é aquele que enxerga o lucro como o seu único objetivo. Lucro não é ilegítimo. Ao contrário: estimula o empreendimento e sem este não há demanda para o trabalhador. Algo que está acontecendo neste momento de crise. Quantas empresas fechando? Principalmente aquelas pequenas, que não têm condições de subsistência, porque dependem da demanda diária. Corrente interrompida com a pandemia.

Os grandes empresários têm outro patamar. Eles podem superar as intempéries. E são estes os chamados a assumirem outra postura ética neste século. O capital não aguenta desaforo. Já percebeu que muito mais grave do que a presente epidemia, que será seguida por tantas outras, é a ameaça da mudança climática produzida pela insana exploração da natureza. A emissão de gás carbônico altera a atmosfera, gera o aquecimento global, provoca seca em alguns lugares e inundação em outros. Precipita tornados, tsunamis, faz com que milhões de humanos fiquem sem água e tenham de migrar para terras onde não são bem vindos.

A lucidez de muitos cientistas não conseguiu demover os fautores desse processo destinado a acabar com a vida no planeta de continuarem na irracionalidade. Mas alguns empresários perceberam que esse ritmo de destruição acabará com todos. Assumiram, então, o compromisso de fazer com que seus negócios não sejam apenas negócios, no sentido convencional, mas sejam atividades que consigam aliar o lucro à preservação ambiental, à causa da redução das desigualdades e a uma governança corporativa essencialmente ética.

A sigla ESG chegou para valer. Ou o mundo corporativo percebe que não haverá futuro para quem continuar na rota egoística ou é o próprio mundo corporativo que estará na rota suicida.

Por feliz coincidência – ou seria a lógica de Deus, como queria Georges Bernanos? – as três grandes potências, que têm condições de ditar os destinos da humanidade, compreenderam a gravidade do quadro. Os Estados Unidos, depois do pesadelo, voltaram a cultivar a boa razão. Biden leva o ambiente a sério. Nomeou John Kerry, com sua vasta experiência, para liderar o setor. O recado foi muito claro: não queremos mais discursos. Queremos resultados. Não venham pedir dinheiro se não fizerem o que é certo em relação à Amazônia e demais biomas. E se não coibirem a generalizada criminalidade perpetrada contra a natureza.

A União Europeia sempre esteve na vanguarda do movimento ambientalista. Admirava o Brasil, que estava a protagonizar as melhores experiências e fora capaz de produzir o mais belo dispositivo constitucional do século 20, o artigo 225 da Constituição Cidadã. Quando assistiu ao desastre dos últimos anos, congelou o Acordo com o Mercosul e anunciou que não comprará produtos que advenham de terra dizimada.

Quanto à China, está firme na redução de emissões, investe em matrizes energéticas limpas e também aderirá ao boicote, se o Brasil não se converter e voltar à boa senda com a qual Paulo Nogueira Neto tanto colaborou, ao conseguir aprovar a Lei da Política Nacional do Meio Ambiente em 1981.

Os empresários inteligentes e que quiserem sobreviver como exitosos empreendedores, terão de abraçar a sigla ESG, não para o marketing ecológico, mas para transformar o mundo. Que a pandemia tenha servido para enternecer os corações egoístas e insensíveis dos que não se condoem com a miséria alheia e que possamos ter, neste Brasil tão sedento de mais Justiça Social, um empresariado efetivamente ético.

A peste escancarou aquilo que estava oculto. Ou que não se queria enxergar. Milhões de irmãos necessitados, clamando por uma chance de continuarem vivos.

Quando o apelo por uma conversão de fato, tanto na metodologia como na prática, vem revestido de sedução, como a mensagem de que ser ético dá mais lucro, talvez se possa nutrir a esperança de dias melhores neste reino tão exuberante e tão desigual.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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