Uma crise para chamar de sua

Uma crise para chamar de sua

Rodrigo Augusto Prando*

18 de fevereiro de 2019 | 12h00

Rodrigo Augusto Prando. FOTO: DIVULGAÇÃO

Não há governo – municipal, estadual ou federal – que não vivencie crises. Elas, as crises, sempre estarão onde há poder, aqui e alhures. Há, no entanto, no governo Bolsonaro uma particularidade: o próprio presidente e os seus (familiares, ministros e aliados) abusam da capacidade de criar e publicizar tensões. Foi anunciado que, segunda-feira, 18/2, Gustavo Bebianno, ministro de Bolsonaro, da Secretaria-Geral da Presidência, será exonerado de seu cargo por Jair Bolsonaro. Essa é uma crise que não advém das manobras da oposição, nem de problemas internacionais, nas fronteiras ou na segurança pública – é, em verdade, uma crise da indistinção entre o público e o privado, do Estado e da família, para falarmos com Sérgio Buarque de Holanda.

Há suspeitas de que o PSL gestou, em seu bojo, candidaturas laranjas nas últimas eleições, quando Bebianno era o presidente do partido. Na tentativa de minorar o desgaste, Bebianno afirmou, a jornalistas, que não havia maiores problemas, pois tinha falado três vezes com o presidente Bolsonaro, buscando demonstrar entrosamento e força política. Tudo poderia ter parado por aí, todavia, entra em cena Carlos Bolsonaro, filho do presidente, que, pelas redes sociais, afirmou que o ministro proferia uma “mentira absoluta”, pois esteve, ininterruptamente, com o pai no hospital e que não havia falado com o ministro. Novamente, o imbróglio poderia ser cessado com o silêncio de todos, mas Bolsonaro, em entrevista, corroborou a versão do filho e jogou o ministro aos lobos.

Sabidamente, já afirmado por fontes próximas da família presidencial, o ataque de Carlos deriva de ciúmes em relação a Bebianno, especialmente por este ter tido, durante a campanha, papel ativo e relevante, e, por isso, assento importante no rol dos ministros de Estado. Reside, aí, um enorme problema: essa é uma crise gerada não nos meios oficiais do governo, mas no campo oficioso, da força dos filhos de Bolsonaro que estão, continuamente, gerando desgastes à imagem do presidente e ao governo.

Como entender que o filho do presidente, vereador na cidade do Rio de Janeiro, tenha tanta influência no mais alto escalão da República? Pode-se, para responder ao questionamento, buscar referências teóricas em, como dito acima, Sérgio Buarque de Holanda, em Raízes do Brasil; em Roberto DaMatta, em “A casa & a rua”, ou, até mesmo, se preferir o leitor, nas dimensões conceituais freudianas. Não faz muito, virou slogan de manifestantes ou camisetas de estudantes na universidade, a frase: “Menos Marx e mais Mises”. Hoje, poderíamos dar continuidade ao afirmar: “Menos Marx, menos Mises e mais Freud” para entender os meandros da conexão ruim, pouco republicana, das esferas familiar e governamental nos dias que correm.

Outro aspecto que reclama entendimento são as inúmeras estultices proferidas pelos ministros de Bolsonaro, mas todas estas têm uma diferença fundamental em relação às falas, atitudes e ações de seus filhos: ministros foram nomeados, exercem o cargo dentro dos limites estabelecidos pela lei e pela burocracia estatal. Os filhos, por sua vez, são, todos, eleitos com vigorosa votação: vereador, deputado federal e senador. Assim, espera-se que cada um deles, os filhos, atuem valorizando os votos que obtiveram nas suas respectivas casas legislativas. Inclusive, por mais surreal que possa parecer, um sobrinho de Bolsonaro, sem cargo algum no governo, foi ao Palácio do Planalto 58 vezes, tem, portanto, frequência maior do que o próprio presidente. Mais grave: esse sobrinho, próximo de Carlos Bolsonaro, estaria ali para manter o vereador carioca informado do andamento do governo.

Como afirmaram os cronistas políticos de Brasília, Bebianno não tem mais vez, está próximo da exoneração, já que não aceitou um cargo fora do Planalto. Mas, não surpreenderia se terminada a segunda-feira, Bebianno continuar ministro. Nada surpreende na confusão de hierarquia e de comunicação que tomou conta da atual gestão. Em todas as possibilidades, Bolsonaro sai desgastado e perdedor. Demitindo o ministro, aquele que acreditou nele e lhe abriu as portas do PSL, e que foi seu advogado, sinaliza aos políticos que não tem fidelidade, nem mesmo com os aliados de primeira hora. E, ao demitir Bebianno, deixa claro que seu filho tem mais força sobre ele do que ele sobre o filho, trazendo medo aos demais ministros e irritando, sobretudo, o núcleo militar do governo.

Caso decida manter o ministro no cargo ou demore muito a exonerá-lo, mostra fraqueza e indica que tem o poder “de direito”, mas que não está exercendo o poder “de fato”. Qualquer resultado será ruim. Isso sem falar naquilo que Bebianno sabe e pode, em pílulas, soltar para a imprensa informações confidenciais da campanha ou, até, aspectos pessoais do agora presidente. No campo institucional, pode-se vislumbrar prejuízo nas negociações para aprovação da Reforma da Previdência, pois muitos podem se perguntar se promessas feitas por Bolsonaro serão cumpridas, já que não hesitou em “queimar” Bebianno.

Em artigo neste espaço – no Blog do Fausto Macedo – intitulado “Família, política e Estado”, em 2018, finalizei com os seguintes dizeres: “Os três (filhos de Bolsonaro), vale, novamente ressaltar, gozam de prestígio por serem os filhos do presidente eleito, mas, essencialmente, tiveram legítimas e avassaladoras votações e exercerão o poder político em suas dimensões municipal (vereador) e federal (deputado e senador). A questão, aqui, finalmente, será aquela proposta por Holanda nos idos da década de 1930 de que “O Estado não é ampliação do círculo familiar” e que o já chamado “Clã Bolsonaro” entenda que as esferas da vida familiar e do poder estatal não podem ser confundidas e nem mesmo permeadas.

Crises sempre pulularão nos governos. Essa crise – Carlos Bolsonaro x Gustavo Bebianno, filho x ministro de Estado – é toda responsabilidade do presidente Bolsonaro, uma crise para chamar de sua.

*Rodrigo Augusto Prando, professor e pesquisador do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas, da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Graduado em Ciências Sociais, Mestre e Doutor em Sociologia pela Unesp

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