Um século em cem dias?

Um século em cem dias?

José Marcos Szuster*

11 de abril de 2019 | 05h30

José Marcos Szuster. FOTO: DIVULGAÇÃO

O fato de Jair Bolsonaro ter herdado um quadro nacional caótico atenua a persistência de problemas atrelados a numerosos ajustes fundamentais para a melhoria do cenário brasileiro e retomada do crescimento. Um desses pontos cruciais é a reforma da Previdência, cujo encaminhamento ao Congresso Nacional foi o mais importante ato nos primeiros cem dias de governo. Afinal, sua aprovação poderá dar-nos um século de prosperidade! No entanto, a turbulência que tem marcado o trâmite da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) no Congresso Nacional, incluindo a troca de farpas com o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, torna a votação imprevisível, fator que mantém a economia em compasso de espera.

Esperando muito que o projeto seja aprovado pelo Parlamento, de modo que prevaleça o bem maior ao Brasil e não interesses menores e picuinhas políticas, cabe avaliar outras questões pontuais deste início do mandato de Bolsonaro, que tem alguns bons ministros, vem procurando parcerias interessantes e prospectando investimentos. Algo a ser melhorado é sua postura como chefe de Estado e de Governo. Parece que ainda está muito envolvido com miudezas. Precisa concentrar-se em assuntos maiores, assumindo postura de estadista.

No plano internacional, o novo relacionamento com Israel é benéfico, pois esse país tem muita tecnologia, pouco espaço físico e recursos naturais. Aqui, temos pouca tecnologia e dinheiro, mas muito espaço e recursos. Uma aliança bem costurada tende a dar muito certo. Além disso, sob a perspectiva de quem, como eu, atua na área de suprimentos para a área médico-hospitalar, o intercâmbio bilateral é bom para o Brasil, pois os israelenses são muito avançados na saúde.

Nesta área, por outro lado, o Brasil tem um problema antigo, ainda não corrigido nos primeiros cem dias do novo governo: a falta de prevenção e controle de surtos e epidemias absolutamente previsíveis. Todos sabemos que a dengue, mais recentemente a febre amarela e outras doenças transmitidas por mosquitos ocorrerão no verão. Porém, com exceção para algumas campanhas de comunicação pouco efetivas, nada se faz de concreto.

Deveria, por exemplo, ser realizada triagem prévia. Para isso, há os testes rápidos de sangue, que poderiam ajudar muito na prevenção. Também seriam muito importantes no controle, pois identificariam os casos de dengue, por exemplo, em poucos minutos, propiciando o tratamento correto e providências para que aquele paciente não transmita a outros. Hoje, os casos suspeitos levam muito tempo para serem confirmados em exames convencionais, cujos resultados saem muitas vezes até depois da cura ou, o que é pior, de evoluções mais graves da doença. Outro problema é que, por falta de prevenção, a população passa a necessitar mais dos produtos e medicamentos para tratamento num momento de surto, o que causa a elevação de preços dos medicamentos.

Uma questão relacionada à importação em geral, incluindo insumos médicos, como materiais e equipamentos para testes clínicos rápidos, é a dificuldade, já mencionada pelo próprio presidente Bolsonaro, de lidar com algumas causas do “custo Brasil”. O desembaraço alfandegário é uma delas. Quando uma mercadoria chega a Hong Kong, por exemplo, em quatro horas já está liberada. No Brasil, são 110 dias. É muito tempo! Uma demora significativa! Os custos de armazenagem crescem. Há, ainda, a burocracia na Anvisa e Inmetro. É tudo necessário, mas é preciso agilizar os processos.

Produtos médico-hospitalares, em grande parte importados, também são negativamente impactados pela desvalorização do real ante o dólar e a instabilidade do câmbio. Por isso, é tão crucial a reforma previdenciária, unanimemente considerada a divisora de águas entre a retração e a prosperidade, a doença e saúde – da população e da economia!

*José Marcos Szuster é CEO da MedLevensohn