Um século a celebrar

Um século a celebrar

José Renato Nalini*

16 de fevereiro de 2021 | 07h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

No dia 8 de julho de 2021, Edgar Morin completará 100 anos. É uma data a ser celebrada no planeta. Pensador instigante, Morin nunca deixou de pensar em aprimorar o convívio. Ele adota o lema “sparsa colligo”, um adágio latino que significa “eu reúno o disperso”. E o faz com extrema categoria.

O antropólogo, sociólogo e filósofo já esteve no Brasil várias vezes. Seus livros são bastante lidos, porque ele indica soluções para os graves problemas contemporâneos. Não se limita a diagnósticos. Nem é fatalista, a considerar a humanidade um caso perdido.

O livro “A via para o futuro da humanidade”, por exemplo, é um complexo de orientações para tornar o convívio mais humano. Ele confessa ter sido solitário e sofrido quando criança, pois perdeu a mãe aos dez anos. Isso o predispôs a se sensibilizar com a infelicidade dos outros.

Quando da Segunda Guerra Mundial, assimilou as ideias de fraternidade internacional e de emancipação dos povos. Aos vinte anos, sob a ocupação nazista, engajou-se na luta pela libertação da França. Só posteriormente incorporou a noção da era planetária de Heidegger. Passou a compreender que a política precisaria não apenas ser planetária, mas absorver dimensões humanas fundamentais. Elaborou o conceito de antropolítica, tema de seu ensaio “Introdução a uma política do homem”, de 1965.

Seguidas visitas ao Brasil o fizeram mergulhar na civilização mestiça. Em seguida, já com a mente disposta a enfrentar as contradições, já formada para religar os conhecimentos separados, elaborou “O Método”, um modo de conhecimento e de reflexão capaz de compreender em plenitude as complexidades. Formulou uma constatação clássica: “A diversidade é o tesouro da unidade humana; a unidade é o tesouro da diversidade humana”.

Em sua concepção, a nave espacial Terra, sob a propulsão de quatro motores incontroláveis – ciência, técnica, economia e lucro – tem uma rota para colidir com três prováveis catástrofes em cadeia. A extinção da democracia, o crescimento da desigualdade e da violência e o cataclismo do aquecimento global.

Acredita que é quase impossível pensar o presente. Cita Ortega Y Gasset: “Não sabemos o que se passa e isso é o que se passa”. Embora exista uma distância entre o acontecimento e a consciência de sua significação, pois o conhecimento é mais lento do que o imediato, ele oferece valiosa contribuição para tornar o mundo melhor.

Detecta que “a unificação tecnoeconômica do globo está em crise. Existe uma coincidência entre a proliferação de Estados soberanos, o crescimento de sua interdependência e de seu fechamento etnorreligioso”. Há uma conjunção de causas para esse fenômeno. Uma delas é a queda generalizada da esperança depositada no Progresso. As policrises estão aí para mostrar que Morin tem razão.

O caso do Brasil é emblemático. Crise ética a desaguar em crise moral, que deflagra e agrava crise econômica. Para culminar, a crise sanitária, que se acrescenta à crise da Democracia Representativa. Ninguém mais se sente representado e o aceno à Democracia Participativa não passou disso: mero sinal, sem qualquer indício de concretização.

Desprezando a consciência ecológica mundial, o Brasil intensifica a degradação crescente da floresta, do pantanal, do cerrado, da Mata Atlântica e de todos os biomas. Extermina-se a biodiversidade e fulmina-se a biosfera, inviabilizando qualquer espécie de vida neste planeta frágil e maltratado.

A proposta viável é a regeneração do pensamento político, pois política é arte. Embora não se possa recusar razão a Saint-Just, quando afirmou: “Todas as artes produziram suas maravilhas; somente a arte de governar produziu monstros”.

Para Edgar Morin, “diante dos problemas vitais e mortais comuns, a comunidade de destino da espécie humana exige uma política da humanidade; essa política seria fundada no conceito de Terra-Pátria, que inclui a consciência do destino comum, da identidade comum, da origem terrena comum da humanidade. Longe de negar as pátrias singulares, a Terra-Pátria as integraria em uma grande pátria comum”.

Parece longe de nossa realidade essa consciência. Aqui, invoca-se a soberania a qualquer pretexto. Ideia força que perdeu vigor há muito tempo e que se tornou relativizada, até porque, todos os fenômenos que impactam as nações desconhecem fronteiras, utópicas convenções dos homens.

É urgente resgatar a ideia de retomada da civilização. “Acreditamo-nos civilizados enquanto, interiormente, a barbárie apodera-se de nós no egoísmo, na inveja, no ressentimento, no desprezo, na cólera e no ódio”.

Tais sintomas de degeneração da convivência estão presentes entre nós. Muitos sequer conseguem enxergá-los, tão naturais se tornaram em nosso cotidiano. Um homem que fará cem anos daqui a alguns meses se propôs a nos alertar sobre os perigos da desumanização. Será que ele foi ouvido?

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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