Um Rosh Hashaná diferente, mas cercado de fé e esperança

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Um Rosh Hashaná diferente, mas cercado de fé e esperança

Daniel Leon Bialski*

08 de setembro de 2020 | 05h00

Daniel Leon Bialski. FOTO: DIVULGAÇÃO

No entardecer da próxima sexta-feira, início do shabat, dia 18 de setembro, o povo judeu comemora a chegada de mais um ano – 5781. Rosh Hashaná – cabeça do ano, em hebraico – é sempre uma data muito festiva. Neste ano atípico, conquanto muitos estejam reticentes, não devemos deixar de celebrar. A despeito, dos percalços dos últimos meses, seguimos lutando e, gradualmente, retomando nossas rotinas. Estamos vivos, com saúde.

Poucos sabem, mas a entrada do nosso ano novo traz também os chamados yamim nora’im – dias terríveis, em hebraico. O período, de nome um tanto assustador, compreende os dez dias entre o começo do ano e o Yom Kipur, o dia do perdão, data mais significativa da religião judaica. Neste intervalo, também conhecidos como dias de julgamento, somos levados a refletir sobre nossas falhas e fraquezas. Buscamos nosso arrependimento e nosso desejo de nos dissociarmos dos erros pelos quais estamos sendo julgados, conclamando que Deus atenue o veredicto e, por consequência, possamos ser perdoados.

Segundo o rabino, teólogo, filósofo e médico Moshê ben Maimon, o Maimômides (1138-1204), não sabemos como funciona o julgamento divino. Portanto, mesmo os mais justos entre nós realizam uma meditação para analisar seus atos, corrigir erros e projetar a evolução como ser humano. É nesse período, segundo o Talmud – compilação de discussões rabínicas – que Deus nos observa, nos julga e traça nosso destino para os próximos doze meses. Por meio de orações e selichot (lindas rezas que lembram poemas), abrimos nossos corações em busca de autoavaliação. Consagramos a fé, a unicidade divina e rogamos perdão por tudo que fizemos para que sejamos reinseridos no livro da vida no ano vindouro.

Como tudo que estamos vivendo neste estranho ano de 2020, as grandes festas judaicas terão um sabor diferente. Não poderemos estar lado a lado, nos abraçando, rezando juntos. Mas isso não abala nossos costumes e nossa tradição. A grande maioria do povo judeu, tirando alguns que viveram os horrores do Holocausto, nunca atravessou momento tão complicado suas vidas pessoal, profissional e comunitária. A calamidade do coronavírus, uma tragédia global, já ceifou a vida de centenas de milhares de pessoas. Trouxe insegurança, desemprego e aflição a ponto de provocar em alguns – não em mim – oscilações sobre a nossa própria fé.

Que os meses terríveis que estamos vivendo e que os yamim nora’im entre o Rosh Hashaná e o Yom Kipur nos levem a uma profunda viagem interior. Parece clara a parcela de culpa da humanidade pelo que ora nos assola. Efetivamente, é preciso que nos penitenciemos pelos nossos erros. Para isso nossa conversa com Deus deve ser verdadeira.

Desejo que sejamos absolvidos dos equívocos cometidos e que no final do Yom Kipur possamos ser inscritos, inseridos e selados no livro da vida. Que tenhamos um ano muito melhor, abundante em saúde, prosperidade e alegrias.

Shaná Tová Umetuká (Um ano bom e doce). Feliz 5781!

*Daniel Leon Bialski é presidente do clube A Hebraica de São Paulo

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