Um retrato que precisa de retoques

Um retrato que precisa de retoques

José Renato Nalini*

13 de agosto de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

Já se tentou fazer do Brasil “um país de leitores”, mas parece que o projeto não vingou. O livro “Retratos da Leitura no Brasil 5”, organizado por Zoara Failla, é um depoimento instigante para quem se preocupa com o tema. O leitor é um indivíduo capaz de exercer uma atuação cidadã mais profícua. Adquire capacidade crítica. Sabe comparar e consegue formular demandas que o não leitor – quase sempre também um não letrado – é incapaz de fazer.

O mapeamento da leitura teve início em 2007 e apurou que praticamente metade dos brasileiros não lê. Boa parte não se interessa pela leitura porque não compreende o que lê. Na quarta edição, em 2015, verificou-se um incremento no percentual de leitores. Como era esperado, as várias crises debilitaram o arcabouço já bastante frágil de estímulo à leitura. Nos últimos anos o desapreço pela cultura é uma política pública muito bem sucedida.

Em lugar da ascensão numérica de leitores, houve uma queda lamentável: 4,6 milhões a menos de leitores. Embora a coordenadora Zoara pretenda encarar de forma otimista os números: 52% dos brasileiros leem, 48% dos brasileiros não são dados à leitura, o quadro é bem adverso.

Uma constatação que surpreendeu os analistas é que houve desaceleração na leitura por parte de uma camada intelectualizada: os portadores de nível superior leram menos nesses últimos anos. Uma das explicações é o tempo despendido na internet, nas redes sociais. Outro fator pode ter sido a recessão econômica. Até os mais abonados sentiram no bolso o amargo da situação. Começam por deixar de comprar livros, antes de reduzir os gastos com alimentação.

Zoara vê uma compensação na diminuição dos leitores, que eram 56% em 2015 e são 52 em 2020. É que a média de livros lidos era de 2,54, agora é de 2,60. Ainda se considera positivo o dado relativo a crianças dos 5 aos 10 anos. Eram 67% os que liam em 2015 e hoje são 71%. Só que na faixa entre 14 e 18 anos, eram 75% os que liam e hoje são 67%.

O tempo livre dos leitores é hoje destinado ao whats App. Se em 2015 eram 76%, hoje são 86%. Acende-se um farol. Como fazer com que esse instrumento de comunicação, que mantém uma legião de brasileiros diuturnamente conectada, seja também um instrumento de estímulo à leitura?

Valeria a pena criar grupos que disseminassem esse hábito, inclusive acenando com uma espécie de emulação? Posso testemunhar que os Clubes de Leitura existem e funcionam a contento, agora até com mais adeptos, em virtude das redes sociais. Antes, o deslocamento podia ser a escusa para não participar. Hoje, o grupo se reúne online, cada um em sua casa, e nada impede que boas discussões surjam nesses encontros.

Facebook, Instagram e Twitter também são concorrentes para a leitura. Nem se diga o que significa o videogame, que empolga crianças e as torna verdadeiramente dependentes. Será que as startups não conseguiriam criar games com incentivo à leitura?

Mais desanimador é chegar à conclusão, a partir de números, que não mentem, que mais da metade dos brasileiros tem alguma dificuldade para a leitura. Isso é também reflexo da falência da educação fundamental. O término do “Curso Normal’, que formava alfabetizadores, foi uma lástima. É só verificar que os brasileiros do tempo do “Caminho Suave” conseguiam ler, escrever e se exprimir muito melhor do que os egressos recentes da educação pública.

Seria importante que os alfabetizadores fossem chamados para trazer sua expertise a alunos com dificuldades, que voltassem as “salas de leitura” nas escolas, que houvesse tempo para leitura em conjunto dentro da classe e que o costume de ler fosse traduzido como singular espécie de prazer, não como obrigação escolar.

O “Retratos da Leitura no Brasil” 5 é um livro que precisa ser lido por professores, por pais, por todos os brasileiros que têm consciência do valor da leitura. Aqueles que podem exigir que o Poder Público publique livros – e não encerrem editoras como a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – mantenha bibliotecas atualizadas em todas as escolas, incentivem as empresas e as prefeituras a formarem e a alimentarem bibliotecas.

Além disso, exijam do governo federal que o livro tenha um tratamento condigno, para que uma nação com tantos analfabetos em sentido estrito, com percentual elevado de analfabetos funcionais, com milhões de iletrados, comece a resgatar o seu passivo com a cultura.

Pode até ser deliberada a política de sufocamento de tudo o que permite às pessoas enxergarem além dos limites de suas contingências. Povo esclarecido não suporta o surreal que tem sido imposto à população deste Brasil tão sofrido, tão desigual e tão perdulário ao destruir suas riquezas, antes mesmo de saber o valor delas.

A despeito da insensatez estatal, os brasileiros esclarecidos têm o dever de remar contra a corrente e de propiciar leitura a todos os semelhantes. Um bom começo é ler “Retratos da Literatura no Brasil 5”. Um retrato que precisa de urgente retoque.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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