Um porto seguro para motoristas de apps

Um porto seguro para motoristas de apps

Rodrigo Palos*

27 de outubro de 2021 | 03h30

Rodrigo Palos. FOTO: DIVULGAÇÃO

Em meados da pandemia, observou-se um movimento intenso dos motoristas de aplicativos partindo para o mercado de logística. O êxodo vem beneficiando significativamente o setor, que agora se prepara para fidelizar esta mão de obra tão importante para suportar as demandas cada vez mais vertiginosas do e-commerce.

As razões para a migração se devem a um cenário bastante complexo que se desenhou em meio à crise sanitária. Primeiro, por conta da insatisfação dos motoristas autônomos com o repasse dos grandes players, já que eles são os que mais perdem receita cada vez que sobe o preço dos combustíveis. A falta de previsibilidade da profissão também é um ponto que pesa para estes profissionais (eles nunca sabem quanto irão receber em um dia de trabalho), sem falar na segurança.

De acordo com a Associação de Motoristas de Aplicativos de São Paulo (Amasp), 25% dos motoristas de aplicativo deixaram de trabalhar para a plataforma desde o início de 2020. O número foi colhido a partir de uma base de dados da prefeitura: havia 120 mil motoristas cadastrados no início do ano passado e, hoje, tem 90 mil.

Outra razão é que estes trabalhadores perceberam as oportunidades que as empresas de entregas oferecem em detrimento dos aplicativos. Se por um lado, o cliente que compra online espera receber suas encomendas rapidamente, em perfeito estado e a um preço de frete justo, por outro, as transportadoras necessitam de mão de obra que viabilize esta entrega. E elas já notaram onde esta força de trabalho está.

Este entendimento por parte das empresas de transporte está levando o segmento a pensar em formas de construir relacionamento com estes motoristas para atraí-los e fidelizá-los de vez enquanto prestadores de serviço. A primeira e mais importante estratégia é garantir remuneração adequada a estes motoristas, para que se sintam confortáveis e possam se programar financeiramente como qualquer trabalhador. Ele precisa ter um ganho mínimo que seja suficiente para arcar com suas despesas e ainda proporcione provisão para imprevistos (essencial para quem dirige o dia inteiro).

A parceria pode ainda envolver outras ações que tragam benefícios mensuráveis e relevantes para o trabalhador. Por exemplo, aplicativos estão surgindo no setor para demonstrar transparência completa na relação entre contratante e contratado, para não restarem dúvidas sobre a relação ganha-ganha. Inclusive, há aplicativos que criaram moedas próprias para serem utilizadas em produtos e serviços com desconto. Esta é também uma forma de mostrar como aquele motorista faz a diferença e como ele importa para a operação como um todo.

Tudo isso vem acontecendo de forma gradual, mas é um retrato das oportunidades que o setor logístico traz para pessoas que precisam fazer os chamados “bicos” para sobreviver. Embora a legislação brasileira não permita que carros de passeio realizem entregas, observamos que o próprio mercado está se auto regulando. Antes, era impensável que as seguradoras de carga contemplassem carros de passeio; hoje, esta já é uma realidade. Assim, a expectativa é que em breve surjam leis que adaptem as necessidades do consumidor de acordo com o que o mercado já pratica. Enquanto isso, as transformações vão ocorrendo de forma gradual e os motoristas tendem a buscar alternativas que sejam mais vantajosas e justas.

Um dado interessante é que, em São Paulo, entre maio de 2019 e maio de 2021, houve um aumento de 10,7% nos pedidos de inclusão da observação “Exerce Atividade Remunerada” nas Carteiras NacionaL de Habilitação (CNHs). Atualmente, são mais de 5 milhões de condutores registrados com a informação em seus prontuários. Isso significa que o mercado de logística deve absorver boa parte desta mão de obra, com boas práticas de retenção.

Isso é o que todos esperamos: que seja bom para todos os lados.

*Rodrigo Palos é fundador e diretor de Inovação em Logística da CARGOBR

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